terça-feira, novembro 30, 2004

Breaking News

Parece que vamos ter eleições. OK!

Por mim tudo bem, vamos é ter muito trabalho para impedir o boys socráticos de tomarem o poder com maioria absoluta.

Post scriptum. Já agora, com Pedro Santana Lopes a líder ou não, o PSD deve ir a eleições sozinho.

Fernando Pessoa

Faz hoje exactamente 69 anos que morreu Fernando Pessoa que, segundo Octavio Paz, premio Nobel da literatura e seu tradutor mexicano, era o maior poeta do século XX.

Nascido a 13 de Junho de 1888 em Lisboa, Pessoa faleceu a 30 de Nobembro de 1935, também em Lisboa, aos 47 anos, quando estava em plena maturidade poética.

Como já disse, não sou um especialista em Pessoa noutro artigo, mas tenho uma grande admiração pela sua obra, sobretudo pela Mensagem, que tem alguns dos melhores poemas que jamais li, mas também pelos seus heterónimos Alberto Caeiro e Ricardo Reis que têm poesias absolutamente admiráveis (p. ex. a série «O Guardador de Rebanhos» de Caeiro).

Não tenho muito tempo para continuar a falar de Pessoa, pelo que deixo aqui um dos poemas de que mais gosto:

    QUINTA
    D. SEBASTIÃO
    REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Provavelmente ainda hoje voltarei a Pessoa.

segunda-feira, novembro 29, 2004

Comunismo democrático?????

No Jornal de Notícias de hoje, Edgar Correia, falando sobre o 17º Congresso do PCP, termina assim o seu artigo (destaque meu):

O grupo que se constituiu para impedir o "Novo Impulso" e tomar de assalto a direcção consuma assim no "congresso" de Almada a ruptura definitiva no PCP. Mas com isso clarifica a situação no campo comunista os caminhos do estalinismo e do comunismo democrático separam-se aqui.

Perdoem-me a pergunta: comunismo democrático? que raio de coisa é essa? Não há aqui uma verdadeira contradição nos seus próprios termos?

Seria bom que Edgar Correia nos explicasse o que é isso de comunismo democrático. Parece-me uma tarefa ingente, mas pode ser que ele se desenvencilhe.

domingo, novembro 28, 2004

Pessoa anti-americano

Num texto intitulado "O provincianismo português", datado de 1928, Fernando Pessoa tenta definir o provincianismo português (mesmo daqueles que se julgavam cosmopolitas) da seguinte forma:

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incpacidade da ironia.

Depois, vai caracterizando cada um destes três aspectos e quando chega ao segundo escreve (destaques meus):

O amor ao progresso é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incindentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando - toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos.

Não conheço suficientemente todos os textos em prosa publicados por Pessoa, nem sequer a sua vida e obra (afinal de contas não sou um especialista em Pessoa), para pode explicar este tipo de afirmação. Mas, provavelmente, embora por razões diferentes, haja uma cultura europeia que tem a tendência de menorizar, culturalmente, os Estados Unidos.

Georges Duhamel (1884-1966), em "Scènes de la vie future", em 1930, escreveu o seguinte sobre o cinema:

C'est un divertissement d'ilotes, un passe-temps d'illettrés de créatures misérables, ahuries par leur besogne et leurs soucis. C’est, savamment empoisonnée, la nourriture d'une multitude que les Puissances de Moloch ont jugée, condamnée et qu'elles achèvent d'avilir.

Un spectacle qui ne demande aucun effort, qui ne suppose aucune suite dans les idées, nesoulève aucunequestion, n'aborde sérieusement aucun problème, n'allume aucune passion, n'éveille au fond des cœurs aucunelumière, n'excite aucune espérance, sinon celle, ridicule, d'être un jour " star " à Los Angeles.

(...)

J'affirme qu'un peuple soumis pendant un demi-siècle au régime actuel des cinémas américains s'achemine vers la pire décadence. J'affirme qu'un peuple hébété par des plaisirs fugitifs, épidermiques, obtenus sans le moindre effort intellectuel, j'affirme qu'un tel peuple se trouvera, quelque jour, incapable de mener à bien une œuvre de longue haleine et de s'élever, si peu que ce soit, par l'énergie de la pensée. J'entends bien que l'on m'objectera les grandes entreprises de l'Amérique, les gros bateaux, les grands buildings. Non !Un building s'élève de deux ou trois étages par semaine. Il a fallu vingt ans à Wagner pour construire la Tétralogie, une vie à Littré pour édifier son dictionnaire.

O anti-americanismo não é coisa de agora, nem sequer nasceu com a guerra do Vietname. É coisa que provavelmente antecede a própria criação dos Estados Unidos da América. A leitura do livro de Philippe Roger (2002), L'ennemi américain. Généalogie de l'antiaméricanisme français, Paris, Editions du Seuil, pode ser bastante elucidativo para uma perspectiva histórica deste fenómeno.

Agora, quanto ao possível anti-americanismo de Fernando Pessoa, bem, vou ter que me informar mais.


sábado, novembro 27, 2004

Questões de mau-gosto

Diz JVC no seu Professorices:

Estive pela primeira vez na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como é possível (para o meu gosto) que se tenha construído coisa tão feia, mesmo ao lado do magnífico edifício da Faculdade de Arquitectura, de Siza Vieira?

Não vou desdizer o JVC, a FLUP não é a coisa mais bonita do mundo. Mas, pelo menos, a sua biblioteca, não sendo das mais equipadas do mundo (por exemplo, não tem tomadas para computadores portáteis em todas as mesas, ao contrário da biblioteca da FEUP) tem uma extraordinária vista sobre o rio Douro do lado sul. Vou para lá ler frequentemente.

Mesmo no seu interior a FLUP sofre, também, do facto de ter demorado tanto tempo a ser concretizada que, quando foi inaugurada já estava um pouco curta para o número de alunos. O interior sofre ainda da sua concepção um pouco antiga (apesar de ter sido inaugurada há menos de 10 anos). Comparada com a Faculdade de Engenharia (FEUP), essa diferença nota-se em múltiplos pormenores.

Mas, acreditem, que o maior problema da FLUP não é o das instalações.

sexta-feira, novembro 26, 2004

Reforma da ONU e já!

Andam para aí uma vozes a pedirem a reforma da ONU para que esta tenha mais capacidade de intervenção no mundo e evitar aventuras "unilaterais" (isto é, segundo eles, dos Estados Unidos).

É óbvio que eu não alinho nesta da ONU como uma espécie de governo mundial, Deus nos livre disso!, pois já na pouca coisas que pode fazer, falhou sempre estrondosamente (ver o caso do Ruanda). Os anos de Kofi Annan à sua frente foi totalmente desastrosa, onde a ONU se meteu houve sempre barraca (podem-me falar de Timor Leste, mas aí se não houvesse a Austrália e Portugal o processo teria falhado como todos os outros).

A ONU é uma torre de Babel, que ainda por cima nem sequer sabe para que lado há-de crescer.

Depois acontecem coisas como o "escândalo petróleo por alimentos" que, curiosamente, tão pouca repercussão tem tido nos nossos media. Agora vem uma notícia que diz que o filho de Annan recebeu dinheiro vindo deste programa...

Sem dúvida elucidativo...

Viva o marxismo-leninismo! (ainda há quem diga isto)

Ontem, relembrei aqui o 25 de Novembro de 1975, hoje, ao ouvir a mensagem de Álvaro Cunhal ao congresso do PCP, parecia-me ter recuado ainda para trás desta data.

Realmente, há pessoas que nunca mudam, Cunhal nunca mudará. E isso, neste caso, não é qualidade nenhuma...

quinta-feira, novembro 25, 2004

25 de Novembro de 1975

se é certo que o 25 de Abril de 1974 derrubou uma ditadura, não menos certo é que o 25 de Novembro de 1975 nos livrou da instalação de uma ditadura ainda pior.

O mês de Novembro de 1975 foi todo ele muito quente. Como experiência pessoal lembro-me de quando da independência de Angola (11 de Novembro) se produziram incidentes no liceu que eu frequentava, obrigando inclusive ao encerramento das aulas durante uns dias (que para mim tinha começado a 4 de Novembro, foi na altura do primeiro 7º ano Unificado de sempre).

Mas a 12 de Novembro a Assembleia da República foi cercada pelos trabalhadores da construção civil. A situação foi tão complicada nesse mês que a 19 de Novembro o VI Governo Provisório (presidido pelo Almirante Pinheiro de Azevedo) suspendeu funções governativas. A tensão cresceu até que a 25 de Novembro há uma tentativa de golpe de estado protagonizada pela esquerda/extrema-esquerda.

Portugal esteve então à beira de uma guerra civil embora o golpe tivesse sido impedido, embora com a perda de 3 vidas, 2 comandos e um polícia militar.

O 25 de Novembro não é uma data de somenos (embora alguns gostem de a esquecer). Foi esta data que nos permitiu manter na rota da Europa evitando os amanhãs que cantam (que na alturam estavam em plena pujança).

Cristianismo sob ataque

Muita tinta fez correr, e ainda vai fazendo, o caso Buttiglione (esta da tinta é metafora, pois agora é tudo informatizado), estou-me a lembrar das acesas discussões, por exemplo, no Blasfémias.

Depois disso, também CAA tem aproveitado para ir mandando picadas aos católicos ditos "profissionais". Também está na moda, entre a esquerda e os bem-pensantes, dizer mal da direita cristã evangélica (que eu suponho não saberem do que se trata, tão ignorantes e cheios de preconceitos quanto ao Cristianismo são estes bem-pensantes).

Mas o que eles não dizem, e que em parte pode explicar o voto de cristão nos Estados Unidos, é que os liberais (no sentido norte-americano do termo) são tão ou mais fundamentalistas no seu afã de afastar Deus da vida dos americanos. Estas iluminadas criaturas (de que por cá também temos desta espécie) não querem sequer ouvir falar de Deus e então, se for no sector da Escola Pública americana (as ciências da educação não criam aves rarae apenas em Portugal, nos EUA não é melhor). O politicamente correcto destas criaturas quer impedir a referência a Deus (isto é do Deus cristão, que Alá pode entrar), com base na sacrossanta ideia de separação entre a Igreja e o Estado que, nos EUA, não está inscrita sequer na Constituição.

O último episódio deste fundamentalismo, poderíamos dizer, ateu seria simplesmente hilariante se não fosse triste: um professor foi impedido de dar aos seus alunos a Declaração de Independência americana porque tinha referências a Deus:

LOS ANGELES (Reuters) - A California teacher has been barred by his school from giving students documents from American history that refer to God -- including the Declaration of Independence.

Steven Williams, a fifth-grade teacher at Stevens Creek School in the San Francisco Bay area suburb of Cupertino, sued for discrimination on Monday, claiming he had been singled out for censorship by principal Patricia Vidmar because he is a Christian.

"It's a fact of American history that our founders were religious men, and to hide this fact from young fifth-graders in the name of political correctness is outrageous and shameful," said Williams' attorney, Terry Thompson.

"Williams wants to teach his students the true history of our country," he said. "There is nothing in the Establishment Clause (of the U.S. Constitution) that prohibits a teacher from showing students the Declaration of Independence."

Isto é, os responsáveis pela escola, sob pretexto da separação Igreja/Estado, querem impedir o verdadeiro conhecimento por partes dos alunos. Querem esconder a religiosidade dos seus antepassados. E ninguém pode ser ofendido por isso, porque se trata de História. Aqui está um tique que os ateístas partilham com os marxistas (e com os defensores do politicamente correcto): a vontade de reescrever a História e, neste caso, apagar Deus dela.

Se pensam que isto é um caso isolado, podem ler no excelente Tongue Tied város casos recentes deste mesmo tipo, por exemplo, este ou este ou ainda este.

Todo este radicalismo anticristão dos "liberais" (americanos) foi sem dúvida uma das razões que lhes fez perder as eleições. Mas, eles, encerrados na sua Torre de Marfim, não olham para a realidade.

Em conclusão, é por isso que quando eu ouço ateístas a dizer que apenas querem a separação real da Igreja e do Estado, não posso acreditar neles. O que os move é um verdadeiro ódio ao Cristianismo, pois acham-se criaturas iluminadas, crentes na "Razão" (e quantos crimes foram cometidos em nome dela nos últimos dois séculos?) que querem libertar os outros do obscurantismo religioso. Enfim, menorizam os outros não acreditando que eles possam estar a pensar pela sua própria cabeça.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Ora aí está um prémio prestigiante...

Lauréat du prix Kadhafi des droits de l'Homme, le président vénézuélien, Hugo Chavez, s'est rendu en Libye pour recevoir sa récompense des mains de l'Algérien Ben Bella

Este sim, é um prémio digno do grande democrata Chávez! vejam só a companhia dele em Tripoli; estavam lá, por exemplo, Daniel Ortega e Ben Bella (este para muita gente já nada diz...).

A lista dos anteriores laureados também é notável: Nelson Mandela, Fidel Castro, Ben Bella, as crianças palestinianas da Intifada, os índios da América, etc...

Todo um manual de um terceiro-mundista profissional. Deve ser bom ser reconhecido pelos seus.

Post-scriptum: Já que o Chirac anda por lá, não lhe querem distribuir também um premiozito? Afinal ele até tinha uns ditadores amigalhaços.

Dia Nacional da Cultura Científica

Comemora-se hoje o Dia Nacional da Cultura Científica. Não vou aqui falar sobre a Ciência em Portugal, embora seja notada a falta de cultura científica dos portugueses, mas apenas fazer notar que este Dia Nacional foi marcado para o dia em que nasceu Rómulo de Carvalho.

Rómulo de Carvalho nasceu em 24 de Novembro de 1906 e faleceu a 19 de Fevereiro de 1997. Foi um grande divulgador da ciência em Portugal. Quando andava eu no então Ciclo Preparatório (actual 2.º ciclo do Ensino Básico), os meus livros de Ciências naturais eram dele.

Mas também na disciplina de Português tínhamos que lidar com ele, agora já sob o nome de António Gedeão. Sob este pseudónimo, Gedeão foi um poeta popular, quem não conhece a a sua "Pedra Filosofal", em que frequentemente a ciência entrava pela poesia dentro.

Eis aqui, apenas, um exemplo:

A Catedral de Burgos

A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.

Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura

terça-feira, novembro 23, 2004

Turquia: o que fazer com ela?

A UE ainda não abriu as negociações com vista à adesão da Turquia (que espero, sinceramente, que nunca venha a acontecer) e já está a ver forma de se descartar...

Segundo o Le Monde, a França procura uma alternativa à adesão pura e simples da Turquia. Chirac viu, certamente, que o seu voluntarismo neste caso esbarra com as dúvidas (mais do que fundamentadas) de alguns dos seus parceiros.

Porquê toda esta pressa em declarar a abertura de negociações em Dezembro? O assunto merece certamente maior reflexão. É que podemos estar a criar expectativas nos turcos que, eventualmente, poderão chegar ao fim. Depois de 10 anos de negociações, em 2014 ou 2015, vamos dizer aos turcos que afinal já não os queremos?

Um pouco menos de eurovoluntarismo era aconselhável.

segunda-feira, novembro 22, 2004

C'est la vie

Ontem e hoje não houve mesmo muito tempo para o blog. As traduções sucedem-se e os prazos de entrega estão cada vez mais curtos.

A semana que se avizinha também não se adivinha muito pacífica. Mais traduções se seguem... Mas de que me queixo eu? afinal é a minha profissão. Se não traduzir não ganho.

Todavia, eu mundo gira e avança, o Mário Soares dedicou-se a dizer disparates no Porto, o Benfica e o Sporting empataram (e precisaram da ajuda do árbitro), o Porto perdeu (por culpa própria antes de mais), etc...

Bem, amanhã, espero voltar ao ritmo normal.

sábado, novembro 20, 2004

Bom-senso francês

Tal como sou capaz de invectivar os franceses por alguns aspectos lamentáveis da sua política externa, também sou capaz de os louvar por, frequentemente, não cederem a modas lamentáveis mais próprias de países como as as leis sobre o chamado "hate-speech" (caso de países como o Canadá ou a Suécia)

Sou contra essas leis, porque elas colidem com a liberdade de expressão. É lógico que nem tudo poderá ser dito, mas as leis neste capítulo terão que restringidas ao mínimo e não favorecer , nem prejudicar qualquer tipo de grupo ou pessoas. Se essas leis forem demasiado específicas estaremos a condenar pessoas por delito de opinião.

Por isso não pude deixar de congratular pelo rumo que as coisas estão a tomar em França no que diz respeito ao projecto de "Loi contre l'homophobie". A "Commission Nationale Consultative des droits de l'Homme" decidiu emitir um parecer em que pede, pura e simplesmente, para retirar a lei. Segundo a notícia (destaques meus):

La Commission reproche au texte de traiter les discriminations par «catégories» de personnes: «C'est l'être humain en tant que tel, et non en raison de certains traits de sa personne, qui doit être respecté et protégé, écrit-elle. (...) Légiférer afin de protéger une catégorie de personnes, risque de se faire au détriment des autres, et à terme, de porter atteinte à l'égalité des droits.

Exactamente como eu penso, todo o ser humano deve ser respeitado enquanto tal e não enquanto membro de uma determinada categoria (seja ela qual for). A Comissão continua, dizendo:

Autre crainte de la CNCDH: exacerber encore un peu plus le communautarisme en érigeant «l'orientation sexuelle en composante identitaire au même titre que l'origine ethnique, la nationalité, le genre sexuel, voire la religion, et donc à segmenter la société française en communautés sexuelles».

É lógico que as associações LGBT não ficaram contentes, mas penso que, se o governo francês seguir este parecer, será uma vitória para a liberdade de expressão...

Tal como eu já escrevi, a propósito do anti-semitismo que se deveria "evitar a tentação de combater o anti-semitismo apenas pela via penal" (e o anti-semitismos é algo bem mais grave em toda a Europa do que a homofobia), também a homofobia nunca poderá ser combatida por uma lei contra "hate speech", porque desse modo estamos apenas a tentar abafar o debate (para além de tentar impor uma certa visão, o que não é nada democrático). Impor uma versão consensual nunca foi um caminho para a resolução de um problema.

Flip-flop à la française

A cadeia de televisão libanesa Al-Manar, controlada pelo Hezbollah, tinha sido impedida de transmitir para França pelo CSA (Conseil supérieur de l'audivisuel) há uns meses atrás, enquanto era levado a cabo uma espécie de inquérito sobre a sua programação.

Esta semana, de uma forma considerada surpreendente pela maioria, o mesmo CSA, sexta-feira passada, através de um acordo, decidiu autorizar a emissão da Al-Manar pelo operador francês Eutelsat.

Conforme se pode ler, na notícia a que eu fiz a hiperligação, os conteúdos da referida estação são de um anti-semitismo extremo e de apelo constante à exterminação dos judeus e do estado de Israel.

Será desta forma que o presidente Chirac pretende combater o anti-semitismo e o islamismo radical entre os muçulmanos de França?

Roger Cukierman, presidente do CRIF, afirmou (sem link) que o Hezbollah fez pressões sobre a frança. Também o Líbano o terá feito e a siutação dos dois jornalistas franceses no iraque também terá tido influência.

Enfim, uma política externa sem coluna vertebral alguma...

sexta-feira, novembro 19, 2004

Oculos aperire

Não sei por que razão, mas a morte de Theo van Gogh parece estar a abrir os olhos de muita gente, mesmo de muito mais gente do que aquela que ficou alerta pelo atentado de 11 de Março em Madrid. Países como a Holanda ou a Alemanha parecem estar agora a sair do torpor em que estavam mergulhadas (mais a primeira do que a segunda) no que diz respeito a este assunto.

A única explicação que eu vejo para isso é o facto de no caso do 11 de Março haver muitas luminárias a dizer que a culpa, no fim de tudo, para o atentado de Madrid era do Aznar por ter alinhado na invasão do Iraque ao lado de Bush. Pobres de espírito que nunca compreenderam a natureza da ameaça islamita.

A morte de van Gogh veio mostrar, se é que isso fosse necessário, que os islamitas têm como alvo todos, mas mesmo todos (sejam eles cristão ou ateus, pró ou anti-americanos, democratas ou comunistas, etc...) que não pensem como eles e, mais, que de algum modo critiquem o Islão.

É certo que ainda há países que fingem nada se passar, como é o caso da Bélgica (que como toda a gente sabe não é um país a sério), que apesar de ter uma senadora ameaçada de morte, prefere ilegalizar o Vlaams Blok ignorando as múltiplas agressões racistas e religiosas de muçulmanos a judeus em vários pontos da Bélgica.

Outros andam a brincar ao espírito de Munique, como o ministro do ambiente alemão Juergen Trittin que propôs a instituição de um feriado muçulmano em troca de um feriado cristão. O que é que ele espera obter com esta proposta, eu não sei, apenas sei que em nada adiantará no combate que se tem que fazer contra o terrorismo islâmico.

Felizmente na Alemanha há que não se deixe levar pelas delícias hipotéticas do multiculturalismo e do relativismo, pois, a oposição CDU/CSU não tem medo de apelar ao governo que no combate ao terrorismo integre também o combate ao islamismo político.

Mas, alguns estão para além de qualquer esperança, Andrew Sullivan anda há dias há procura de uma pequena referência "dos liberais americanos" sobre a questão. Finalmente saiu ontem qualquer coisinha no San Fracisco Chronicle. Demorou 16 dias. A esquerda americana tem um silêncio ensurdecedor sobre o assunto.

Esperemos, apenas, que a morte de van Gogh alerte, de vez, os que estão a dormir, para a guerra que já está dentro das portas da Europa.

Referendo

Ontem, foi um dia complicado não deu tempo para o blog. Mesmo assim, não queria deixar de notar que ficámos a saber que o a Maioria e o PS já têm uma pergunta para o referendo da Constituição europeia:

Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?

Desde já faço a minha declaração de voto, com esta ou qualquer outra pergunta desta índole: Não!

Dixit.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Cartas portugueses

Cartas portugueses é o nome de um novo blog da autoria de Luís Bonifácio (de que tomei conhecimento através do Último Reduto). Segundo o autor:

O presente Blogue tem por finalidade apresentar uma prespectiva da 1ª República através da correspondência recebida por duas figuras do regime, Raimundo Meira, coronel de artilharia, Governador-civil de Viana do Castelo, Deputado e Senador pelo Partido Democrático, Governador-geral de Timor. e Simas Machado, General, Deputado e Senador do Partido Evolucionista e mais tarde do Partido Liberal, comandante da 2ª Divisão do C.E.P. na Flandres, alto-comissário da República na Madeira e nos Açores e governador militar de Lisboa por ocasião da revolução de 28 de Maio.

De entre o lote dos remetentes das cartas encontrar-se-ão Afonso Costa, António José de Almeida, Egas Moniz, Homem-Cristo e muitos outros.

É claro que se trata de um blog mais do que recomendado. Irá para a coluna da direita logo que possível.


O muro de Berlim não caiu

Jerónimo de Sousa proposto para secretário-geral do Partido Comunista Português.

Depois queixem-se de estar a perder votos.

Já estou a ver a felicidade estampada na cara dos dirigentes do PS e do BE...

A Revolução de Veludo

A 17 de Novembro de 1989, a Checoslováquia livrou-se da sua ditadura comunista de 41 anos. Foi a chamada Revolução de Veludo e foi mais uma passagem do vento de liberdade que atravessou toda a Europa de Leste e que culminou na derrocada da União Soviética dois anos mais tarde.

Nestes 15 anos, entretanto, a Checoslováquia desapareceu, tendo em seu lugar surgido dois países: a República Checa e a Eslováquia.

No Le Figaro de ontem, foi publicado um texto Vaclav Havel, ex-presidente da República Checa, intitulado "Ce que le communisme peut encore nous apprendre".

Post-scriptum. Não resisto a esta tentação linguística de fazer notar, para aqueles que são menos versados na língua francesa, que o título de Havel deverá traduzir-se como "O que o comunismo nos pode ainda ensinar", pois o verbo "apprendre" em francês tem os dois sentidos: aprender e ensinar. Apenas o contexto pode desambiguar o seu sentido.

terça-feira, novembro 16, 2004

O novo Abu Ghraib...

Um marine matou um iraquiano ferido dentro de uma numa mesquita.

Alarido geral na imprensa bem pensante e também nos suspeitos do costume da blogosfera portuguesa. "Daqui d'el-Rei" que este tipos são uns assassinos. Enfim, a demagogia habitual.

E demagogia porquê? Será que eu defendo a morte de prisioneiros desarmados e, ainda por cima, feridos? É claro que não. Mas (e aqui entra esta adversativa por vezes tão irritante) não nos podemos esquecer das circunstâncias específicas que por levam frequentemente, em caso de guerra, as pessoas a cometer actos que dificilmente cometeriam na vida civil.

Em primeiro lugar, estamos perante uma situação de guerra e não de operação policial. O combatente tem, como principal missão, proteger-se a si e aos seus camaradas (o meu comandante de pelotão dizia que "colegas são as putas").

Perante a situação que se lhe deparou de um ferido que fingia estar morto e perante a experiência do que teria acontecido no dia anterior, pois a notícia de que faço o link diz o seguinte: "Sites [o jornalista] reported a Marine in the same unit had been killed just a day earlier when he tended to the booby-trapped dead body of an insurgent" o soldado pode ter visto algum tipo de ameaça (se calhar inexistente) e reagiu instintivamente.

Aliás os americanos, desde a 2.ª Guerra Mundial defrontaram-se com inimigos feridos que não tinham problemas em se suicidar à granada quando os enfermeiros americanos chegavam perto deles. Em Guadalcanal, os americanos deixaram de prestar assistência aos japoneses feridos por isso mesmo.

É muito fácil estar em casa a mandar bitaites, confortavelmente sentado na poltrona a clamar "assassinos". Só que isso não passa de demagogia. Ou então é desconhecer o que é a guerra, o que eu não acredito.

Casos como este deve ter sido vários, acredito mesmo. Este atingiu esta projecção porque foi filmado. Devemos aceitá-lo, sem mais nem menos? Não. Deve-se investigar e apurar as circunstâncias. Mas querer que alguém ao fim de vários dias de difíceis combates racicione friamente deve viver no mundo da lua...

E daí a concluir que os americanos no Iraque se dedicam a massacrar pessoas inocentes e desarmadas (como provavelmente alguém irá dizer) é apenas desonestidade intelectual.

Parabéns

Bem, já passa da meia-noite, pelo que o 1.º aniversário de O Observador foi, tecnicamente, ontem.

Todavia não queria deixar de mandar um abraço ao André e pedir-lhe que continue pronto a continuar mais alguns.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Intolerância

Geralmente não estou de acordo com Joaquim Vieira, director da Grande Reportagem, mas no caso do editorial da edição de 13/11/2004, com o título de "Intolerância", eu poderia ter escrito estas linhas, pois não posso estar mais de acordo:

Quando os imigrantes recusam a adopção dos valores ocidentais e adoptam a vida em gueto, como sucede em grande parte dos muçulmanos, algo está a falhar, e imediatamente vem à memória a extinção do Império Romano pelas chamadas invasões bárbaras. Pode ser que um dia essa pressão seja insustentável, mas é dever do Ocidente resistir e lutar por todos os meios em defesa do seu modo de vida (que, não nos iludamos, julgamos superior a qualquer outro). O que passa não só por uma avaliação das condições de entrada e fixação de imigrantes, mas também pelo reforço das medidas de prevenção e luta contra o terrorismo.

A comparação com a queda do Império Romano é justificada e, por várias vezes, em diversas conversas com outras pessoas eu mesmo a fiz. O Império Romano desde o século III d.C. recebeu numerosas tribos bárbaras no seu interior, que nunca se romanizaram e que, juntamente com a pressão exterior no séc. V, contribuíram fortemente para a queda do Império.

É bom conhecermos bem a história, pois como dizia Cícero:

"historia uero testis temporum, lux ueritatis, uita memoriae, magistra uitae, nuntia uestastis"
(A história é, de facto, testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado)

O modelo multiculturalista está condenado ao fracasso e só pode levar ao desastre final. A Europa tem que deixar de ter vergonha de ser o que é, e do seu passado, e defender por todos os meios a sua cultura.

Humanae Litterae

Finalmente, penso eu, o Humanae Litterae vai começar a ter artigos com publicação regular.

Para já, a primeira parte de um artigo sobre as "humanae litterae".

Espero que gostem.

domingo, novembro 14, 2004

Eixo do mal

Vi ontem pela segunda vez este novo programa da SIC-N. Embora se veja bem, não há nele nada de muito excitante e, de resto, a maioria da opiniões neles expressas são relativamente banais. De resto, o único que sobressai um pouco, embora nem sempre concorde com ele, é o José Júdice. Dos restantes não há muito a dizer...

O programa tem que encontrar definitivamente o seu registo. Como está não é espinha de peixe nem de bacalhau. É que a ironia não é para todos.

Pode ser uma opinião contestável a minha, mas de facto, ainda não consegui ver o programa de uma forma atenta, pois ele não me consegue prender assim tanto que me faça parar o que normalmente faço enquanto estou a vê-lo (raramente consigo ver televisão sem estar a fazer outra coisa qualquer).

sábado, novembro 13, 2004

Santo Agostinho

Aurelius Augustinus nasceu em Tagaste (hoje Souk-Ahras), Numídia (na actual Argélia), a 13 de Novembro de 354 d.C., faz hoje, portanto, 1650 anos. Foi bispo de Hipona e um dos mais influentes, considerado por muito o maior, dos chamados Padres da Igreja.

Os Padres da Igreja são aqueles autores cristãos anteriores ao séc.VII que exerceram, por meio dos seus escritos, pela sua pregação ou pela sua santidade de vida, influência profunda na fé e na vida da Igreja.

Os padres apologetas dos três primeiros séculos (sobretudo no século II, como Tertuliano) defenderam o cristianismo do ataque dos pagãos. Depois deles, os padres teólogos, a partir do séc. IV, lutaram contra as heresias (como, por exemplo, o arianismo e o donatismo). Aliás o séc. IV até ao ano de 430 d.C., data da morte de Santo Agostinho, foi o século por excelência dos Padres da Igreja. Geralmente considera-se como o últimos Padres da Igreja ocidental Santo Isidoro de Sevilha (c. 560 - 636 d.C.) e o último dos Padres gregos São João Damasceno (676 - c.754-787).

Não vou aqui fazer qualquer resumo da sua obra pastoral ou doutrinal, aconselho, antes a visita a este extraordinário Sant'Agostino onde se pode encontrar, por exemplo, a sua opera omnia em latim, mas também em traduções de outras línguas como italiano. Apenas digo que Santo Agostinho foi o primeiro Padre ocidental a ser reconhecido, juntamente com São Jerónimo e Santo Ambrósio de Milão.

Morreu em 28 de Agosto de 430 d.C., aos 76 anos, ainda como bispo, enquanto os Vândalos cercavam Hipona.

sexta-feira, novembro 12, 2004

Memória

Na minha mania de mencionar factos do passado, não podia deixar passar o 13º aniversário do fatídico massacre no cemitério de Santa Cruz em Timor-Leste.

Só um aparte linguístico: nunca gostei desta maneira de referir o país (Timor-Leste). É um decalque de East Timor que não tem razão de existir em português; porque não escrever Timor Oriental? Era mais correcto. É que "leste" não é adjectivo, para ter valor adjectival teria de se escrever "de leste", como aliás se fazia com a Alemanha Oriental também chamada Alemanha de Leste. Bem, foi só um desabafo.

Este massacre, em que terão morrido cerca de 200 pessoas, foi um ponto de viragem na questão de Timor, pois, ao contrário dos massacres que tinham acontecido no passado, este foi filmado e todo o mundo pode ver na televisão a actuação criminosa e genocida do ocupante indonésio.

A partir daí a questão timorense começou, lentamente, a estar na ordem do dia, primeiro, da diplomacia portuguesa, depois da europeia e por fim da dos norte-americanos. O resultado já todos nós o conhecemos.

Mas a divulgação televisiva do massacre em muito contribuiu para o resultado final.

Post-scriptum. Durante os 24 anos de ocupação indonésia de Timor, terão morrido cerca de 200 mil timorenses, numa população que tinha menos de um milhão de habitantes. Não sei quantas pessoas terão morrido no conflito israelo-árabe em mais de 50 anos, mas duvido que tenha morrido tanta gente como aquela que morreu em Timor. Quando ouço comparar Israel aos nazis é óbvio que esta gente não tem o sentido das proporções nem sabe do que está a falar. Genocídio foi o que aconteceu em Timor, não aquilo que acontece na Palestina (embora também trágico).

A culpa é do Bush

Leio nesta notícia do Le Monde que as "populações autóctones" do Ártico criticaram a política americana em matéria de clima, pois com a sua recusa em assinar o protocolo de Quioto, não combatem a emissão de gases que provocam o efeito de estufa e, alegadamente, e também o aquecimento global da terra.

Já agora quem é que as "populações autóctones" culpam por isto:

"Mars is experiencing global warming," Malin said. "And we don't know why.".

Este tipo devia saber a resposta: é Bush, claro!


quinta-feira, novembro 11, 2004

O princípio do fim

Faz hoje 86 anos que foi assinado o armistício com a Alemanha que pôs fim à I Guerra Mundial. Foi uma tragédia para a Europa pois foi o princípio do fim da liderança europeia no mundo (embora isso só tivesse ficado à vista depois da II Guerra Mundial).

A guerra tinha começado com a declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia em 28 de Julho de 1914. O complexo sistema de alianças da Europa da belle époque fez o resto. A Rússia, a França, a Inglaterra, a Alemanha e até a Turquia e o Japão em breve estavam todas envolvidas.

A causa próxima para o desastre foi o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro, em Saravejo, na Bósnia, a 28 de Junho de 1914, pelo nacionalista sérvio Princip. Mas a guerra outras causas: foi o culminar das tensões entre impérios que dilaceravam a Europa desde meio do século XIX.

As consequências foram tremendas, o mapa geopolítico foi completamente alterado, desaparecendo quatro impérios, o dos Romanov (1917), o dos Hohenzollern (Alemanha) e dos Habsburgos (Áustria-Hungria) em 1918 e dos Otomanos (Turquia) em 1922.

Mas, sobretudo, a I Guerra Mundial foi uma espécie de suicídio colectivo que a Europa praticou, pois as consequências da guerra foram tão brutais que o continente perdeu a iniciativa no mundo e, sobretudo, criou condições para o desastre ainda maior que foi a II Guerra Mundial (e isso, muito por culpa da França, mas não só, que não soube ganhar a paz).

Arafat

Finalmente foi anunciada a morte de Yasser Arafat. A má telenovela que se fez à volta do seu internamento em França acabou por fim.

Tinha a intenção de escrever um texto onde começaria por dizer que não iria fazer-lhe o elogio fúnebre (disso se encarregarão os atentos, venerados e obrigados órgãos de comunicação social de todo o Ocidente), mas depois, antes de começar a trabalhar, li este texto no Jornal de Notícias da autoria de Francisco José Viegas. No essencial ele diz aquilo que eu queria dizer.

Aconselho a leitura integral, mas deixo aqui o início do texto:

Não, não vou chorar lágrimas de crocodilo. Não vou deixar de reconhecer o seu papel no Médio Oriente e na chamada "causa palestiniana". É provável que seja um herói. Mas não vou tecer um elogio fúnebre. Se os palestinianos ainda não têm um país independente, devem-no também a ele, que desfez acordos e mentiu descaradamente sobre os seus próprios planos, autorizando comandos suicidas formados por adolescentes e treino militar às crianças de Gaza. Se ainda há israelitas que se opõem à constituição de um estado palestiniano (e são muito poucos) devem-no muito a ele, que autorizou e mandou executar civis com a frieza de um "grande líder", condenando massacres em inglês e incentivando-os em árabe. Não aceito a encomenda de um Arafat transformado em anjo - desenho que, repetidamente, as televisões vão pintar, durante as semanas mais próximas, e que os jornais vão reter em colunas laudatórias, rendidas diante da morte do "grande estadista".

quarta-feira, novembro 10, 2004

Multiculturalismo em pedaços

Todos os que me lêem sabem que eu não sou um adepto do multiculturalismo na forma em que ele é geralmente entendido, isto é, como comunitarismo. Digo isto por vário motivos.

O primeiro, é porque essa visão ignora o indivíduo e tende a considerar que um determinado indivíduo pertencente a uma determinada etnia, raça, religião deveria actuar de acordo com as ideais predominantes da comunidade a que pertence. Qualquer desvio a essa conduta é vista como uma traição à sua comunidade. A liberdade individual, nesta visão comunitarista, fortemente restringida pois tal indivíduo será logo posto à parte.

O segundo, obviamente relacionado com o primeiro, é que a visão comunitarista torna a comunidade minoritária fechada e, por isso mesmo, não se integrando no país onde estão. Até podem viver há muito tempo no país, falar bem a língua, frequentar a escola, mas como estão encerrados na comunidade, pelos seus contrangimentos sociais, religiosos, etc., nunca aceitarão as regras dessa sociedade onde se deveriam integrar.

E o pensamento politicamente correcto não ajuda em nada para a resolução do problema. Por exemplo li ontem no The Sun que um centro comercial em Birmingham iria, neste Natal, fazer desaparecer o Pai Natal para não ofender os não-cristãos. Para além da enorme estupidez de quem tomou esta decisão, este género de atitudes impede que as várias comunidades sejam confrontadas com um mundo que não se conforma aos limites da sua comunidade.

Como diz Hirshi Ali, deputada ao Parlamento holandês, de origem somaliana e que se refere a si própria como ex-muçulmana, citada nesta Le Figaro:

«Les Pays-Bas se sont vus comme un modèle de tolérance, mais cantonner les immigrés dans leurs communautés, laisser les femmes musulmanes prisonnières du carcan fondamentaliste et de l'excision, est-ce de la tolérance ou de l'aveuglement ?»

Por isso, nunca compreendi o fascínio de muitos intelectuais por modelos multiculturalistas baseados em comunidades. Não vêem que estão a condenar milhões de pessoas a uma prisão social, a estereótipos, a impedir a realização pessoal e individual?.

91 anos

Hoje, Álvaro Cunhal completa 91 anos de idade. Para os mais novos ele já nada diz, para outros, como eu, ele era o agente da União Soviética em Portugal, que procurava fazer entrar Portugal na órbita soviética. Foi mal sucedido, mas pouco faltou para lançar o país numa guerra civil.

Passado este tempo, apesar da queda do muro (que péssimo 76º aniversário deve ter ele passado), Cunhal continua a acreditar na "construção da sociedade socialista" como se pode ver por este excerto do seu artigo O mundo de hoje (originalmente publicado no Avante de 6 de Novembro de 2003):

A questão que se coloca aos trabalhadores, aos povos e às nações é se tal ofensiva é irresistível e os trabalhadores, os povos e as nações estão condenados a submeter-se, ou se há no mundo forças capazes de se lhe oporem.

Os trabalhadores, os povos e as nações não podem aceitar que tal ofensiva global seja irreversível. E, se assim é, importa considerar se há e, havendo, quais são as forças capazes de impedir que o imperialismo alcance o seu supremo objectivo.

A nosso ver, são fundamentalmente:

Primeiro: Os países nos quais os comunistas no poder (China, Cuba, Vietname, Laos, Coreia do Norte) insistem em que o seu objectivo é a construção de uma sociedade socialista.

Apesar de ser por caminhos diferenciados, complexos e sujeitos a extremas dificuldades, é essencial para a humanidade que alcancem com êxito tal objectivo.

Segundo: os movimentos e organizações sindicais de classe, lutando corajosamente em defesa dos interesses e direitos dos trabalhadores.

Terceiro: partidos comunistas e outros partidos revolucionários, firmes, corajosos e confiantes.

Quarto: movimentos patrióticos, com as mais variadas composições políticas, actuando em defesa dos interesses nacionais e da independência nacional.

Quinto: movimentos pacifistas, ecologistas e outros movimentos progressistas de massas.

É no conjunto destas forças que pode residir e que reside a esperança de impedir a vitória final da ofensiva do capitalismo visando impor em todo o mundo o seu domínio universal e final.


Como se pode ver, para Cunhal, os regimes mencionados no primeiro ponto são perfeitamente legítimos e Cunhal deseja-lhes sucesso (não sei como, já se viu que o socialismo real falhou em toda a linha).

Se nos segundo e terceiros pontos não há surpresas, os quarto e quinto pontos são muito interessantes e explicam que contra a globalização vale tudo (e por isso vemos esquerdistas de origens e credos variados aliados a movimentos antiglobalização e "progressistas", e que aceitam agora a adesão a esta frente de movimentos islamitas (como se viu ainda no último Forum Social Europeu de Londres).

Cunhal viveu até aos 76 anos na ilusão, pelo que era difícil mudar, mas é pena ver gente muito mais nova ainda alinhadas com teorias que se provram completamente alienadas da realidade e longe de poderem resolver os problemas da sociedade.


terça-feira, novembro 09, 2004

Como nasce o terrorismo

O investigador de origem basca Alberto Abadie, da JFK School of Government, publicou um estudo em que desmente a teoria (tão cara ao nosso Mários Soares) de que o terrorismo é originado pela pobreza (ainda agora na Holanda alguns estão a tentar explicar pela discriminação e pobreza dos muçulmanos a subida do fundamentalismo entre os muçulmanos), concluindo, pelo contrário que o terrorismo está ligado ao grau de liberdade política. A notícia deste estudo está publicada na Harvad Gazette com o título: Freedom squelches terrorist violence.

"In the past, we heard people refer to the strong link between terrorism and poverty, but in fact when you look at the data, it's not there. This is true not only for events of international terrorism, as previous studies have shown, but perhaps more surprisingly also for the overall level of terrorism, both of domestic and of foreign origin," Abadie said.

Instead, Abadie detected a peculiar relationship between the levels of political freedom a nation affords and the severity of terrorism. Though terrorism declined among nations with high levels of political freedom, it was the intermediate nations that seemed most vulnerable.


Segundo o investigador, as nações que estão em processo de transição de ditaduras para regimes democráticos são os mais sujeitos a fenómenos terroristas (Iraque, por exemplo).

Pode ser que este mito da pobreza como origem do terrorismo acabe de vez. Aconselho a leitura da notícia completa.

O fim do mito

Há 15 anos atrás, o mito comunista afundou-se (melhor, começou a afundar-se). A queda do muro de Berlim na noite de 9 para 10 de Dezembro de 1989 é sem dúvida um dos acontecimentos que reterei sempre na memória.

A crise estava anunciada com a fuga de alemães orientais através da então Checoslováquia e da Hungria para o Ocidente. A sociedade da República Democrática Alemã (ou Deutsche Demokratische Republik) - quantos estudantes de hoje saberão o que significa RDA, DDR e, já agora, URSS? - estava a movimentar-se e a exigir mais liberdade

O governo da Alemanha Oriental perdeu o controlo e sem que conseguisse reagir viu os seus cidadãos forçarem o muro perante guardas completamente atónitos ou sem saber o que fazer.

Para quem, como eu, tinha visto o auge do comunismo nos anos 70, que parecia uma força invencível - lembre-se que em 1975 Saigão caíra e que o Cambodja também ficava sob domínio dos kmhers vermelhos -, que os EUA estavam a perder o rumo com a administração ruinosa de Jimmy Carter (concorrente favorito ao concurso de pior presidente dos EUA de sempre) e a Europa Ocidental em tergiversões como a Ostpolitik de Willy Brandt, a noite do dia 9 de Novembro foi absolutamente fabulosa. The writing was on the wall e foi o início do fim para uma ideologia messiânica terrena que matou milhões de pessoas.

Bem sei que ainda há regimes (mais ou menos) comunistas na China, Coreia do Norte, Cuba, Vietname e Cambodja. Mas já não são vistos como "sol da terra" (na imortais palavras de Álvaro Cunhal), antes como bizarrias que durarão mais ou menos tempo de acordo com as debilidades específicas de cada regime.

Todavia, há também algo que me lembra desta crise na Alemanha Oriental. É um comentário que esse grande especialista em assuntos internacionais chamado José Goulão fez quando, durante este período de crise, lhe perguntaram qual o futuro da RDA (é preciso não esquecer que a reunificação só se fez constitucionalmente em 3 de Outubro de 1990) e ele respondeu que a RDA nunca se iria integrar na RFA (República Federal Alemã ou Bundersrepublik Deutschland - BRD), pois com os seus 40 anos de história tinha criado uma mentalidade de independência em relação aos seus vizinhos ocidentais. Viu-se...

Desde esse dia, ouço todos os "soi-disant" especialistas com um pé atrás (nunca sabemos quando nos sai um outro Goulão).

segunda-feira, novembro 08, 2004

Cem mil

Em devido tempo o Miguel indicou as ligações que desmontaram, definitivamente, o mito dos cem mil mortos civis no Iraque.

Mas, no sábado passado, Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, e hoje Teixeira Lopes (em declarações sobre a GNR no Iraque) e Ruben de Carvalho (na SIC-N) voltaram a falar nos supostos 100 000 mortos civis no Iraque.

Estarão à espera que o velho adágio de que uma mentira muitas vezes se tornará em verdade?

Ou será que a nossa esquerda está em decadência intelectual?

Mistério...


Holanda acorda para o pesadelo

Os holandeses, parece-me bem, estão a começar a acordar para o terrorismo islâmico dentro de portas, conforme nos informa esta notícia.

A morte de Van Gogh não terá sido obra de um fundamentalista isolado, mas de uma célula terrorista bem organizada.

As autoridades holandesas parecem dispostas a reagir e não negarem a existência do problema (ao contrário de outros países europeus).

O assunto é demasiado importante para se deicar cair no esquecimento. Ainda estamos a tempo para resolvê-lo. As ideias politicamente correctas e multiculturalistas não podem nem devem interferir nesta questão, pois trata-se em primeiro lugar de um ataque ao estado de direito.

Por isso, nenhuma abordagem desculpabilizadora pode ser permitida.

Notícias inquientantes

Segundo notícia da Proche-orient.info, o Hezbollah lançou um avião sem piloto, de fabrico iraniano, que sobrevoou Israel durante 20 minutos.

Se a escalada tecnológica se verificar no Médio Oriente, algo me diz que algo mais grave se poderá vir a passar em tempos mais próximos.

domingo, novembro 07, 2004

Intervenção neocolonial?

A França está a intervir em força na Costa do Marfim. Naturalmente que esta intervenção não é exactamente igual à dos norte-americanos no Iraque.

Mas parece-me muito claramente uma intervenção neocolonial. Já repararam que a grande maioria das intervenções da França (excluindo a ex-Jugoslávia e a Guerra do Golfo I)foram sempre em países anteriormente colonizados pela França ou sob influência francófona.

Parece-me realmente que a França tem uma forças armadas neocoloniais. Chirac não gosta de revoluções no jardim dele.

(Re-)Apresentação

Este blog é uma continuação do Super Flumina apenas porque me irritei com o Sapo pois hoje não consegui entrar no blog todo o dia.

Por isso, lentamente, irei passando a escrever neste blog e o Super Flumina será descontinuado em devido tempo. Já não tenho paciência para o Sapo.

O próprio nome do blog indicia a continuação do anterior e, por isso, os meus habituais leitores poderão encontrar o mesmo tipo de textos e opiniões a que já estão habituados.

Vamos a ver se na nova casa as coisas correm melhor do que com a anterior.

Post-scriptum. Aos poucos vou transferindo os artigos que estavam no outro blog. Todos os artigos anteriores a esta (re-)apresentação apareceram primeiro no Super Flumina alojado no Sapo.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Também na Holanda...

... parece que os islamitas têm uma rede montada pronta a fazer atentados terroristas. Com o assassino presumível de Theo van Gogh foram presos mais islamitas. Isto é, parece que começa a haver uma rede terrorista islâmica na Holanda.

A Europa tem que deixar de sonhar com sociedades multiculturais quando alguns daqueles que acolhe querem subverter as instituições ou direitos existentes. Eu já disse que não acredito em sociedades multiculturais, porque do modo em que os seus defensores a colocam, parece-me mais que origina a criação de guetos de que uma verdadeira troca de experiências ou culturas.

Por outro lado, o multiculturalismo não integra (não estou a falar de assimilação), mantendo certas comunidades mais à margem do desenvolvimento, tornando-as presas frases de demagogos.

Se a Europa deve manter o seu humanitarismo e capacidade de acolhimento tem que ser mais exigente para com quem entra, de modo que qualquer apelo a violência e ao ódio seja reprimido com dureza. Até agora, em muitos países, pregadores muçulmanos têm sido deixados à solta disseminando a sua mensagem de ódio às comunidades que os acolhem. Para bem da segurança europeia, isso não pode continuar...

quinta-feira, novembro 04, 2004

Arafat

Arafat está mas é como se não estivesse. Poderia ter sido o líder que tivesse estabelecido o povo palestiniano num estado próprio. No entanto, andou muito tempo mais preocupado com a tentativa de destruição de Israel. Quando teve que fazer a paz, não o conseguiu (não digo que os israelitas tenham feito tudo o que podiam também). Demasiado habituado à guerra, não soube (não pode?) dar o passo decisivo para a paz.

Será que depois da sua partida os palestinianos encontrarão um líder capaz de fazer a paz? Duvido, mas esperemos para ver. Com Arafat a paz nunca seria possível.

The day after

Engraçado este artigo sobre o efeitos da eleição de Bush em Hollywood. Mas, isto são apenas faits-divers nada mais nem muito preocupante. Hollywood seguirá como dantes, seja Bush, fosse Kerry.

Para mim é muito mais preocupante da sanidade mental europeia, antes de mais, é o título do Daily Mirror (segundo reporta o Drudge Report):

How can 59,054,087 be so dumb

Independentemente da provocação que o título deixa passar, também por ele perpassa uma clara irritação plea escolha. A leitura da imprensa francesa online de hoje também não deixa dúvidas do desprezo que alguns sentem pela escolha dos norte-americanos. É preocupante este sintoma, porque demonstra muito pouca democracia. Ouve-se as rádios portuguesas e, também, os comentadores demonstram esta incompreensão pela democracia.

Será que eles não gostam da diversidade de opiniões?

quarta-feira, novembro 03, 2004

Da Ruralidade

Das análise do mapa eleitoral americano, uma análise recorrente que se ouve é que a América rural e profunda (ignorante e inculta segundo esses senhores) votou esmagadoramente Bush, enquanto a América culta, educada, cosmopolita (a Costa Leste acima da Virgínia e a Região industrial dos grandes lagos) teria votado Kerry.

A imagem que estes analistas querem passar é a de que os americanos cultos votaram nos democratas e o americanos pouco mais do que grunho votaram Bush. Como todas as análises reducionistas, ela não poderia ser mais grosseira e errada.

Em primeiro lugar, parece-me que há aqui um complexo que todos sabemos ser bem de esquerda: o elitismo. Desde o século XVIII que a esquerda sofre deste complexo: eles pensam, embora não o digam abertamente, que apenas os iluminados deveria dirigir os países. Isto é, acham que os outros não capazes de verem o que é bom para o país porque não pensam como eles. Só quem pensa como eles é que é culto e pode ter uma palavra a dizer no governo dos países.

Já por várias vezes, este complexo se manifestou no passado, mesmo em Portugal. Veja-se o caso da Lei eleitoral da 1.ª República de 1913:

Com a República abandona-se o sufrágio censitário, mas mantém-se-lhe carácter restrito, exigindo-se 1.º, em alternativa, um requisito capacitário (saber ler e escrever) ou um qualidade social (ser chefe de fam.), com o dec. de 11.4.1911, e depois sempre e necessariamente o requisito capacitário (Lei n.º 3, de 3.7.1913). O Governo de Sidónio Pais, procurando encontrar uma base eleitoral desvinculada dos partidos tradicionais (o preâmbulo do dec. 3907 afirma que a percentagem de analfabetos na população portuguesa, seria na altura de 70%), tornou o sufrágio universal para os homens (decs. n.ºs 3907 e 3997, de 11 e 30.3.1918). Mas o sistema deixou de vigorar com o dec. n.º 5184, de 1.3.1919, que restabeleceu o regime da Lei .º 3.
(Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 1968)

Que se pode concluir deste passo? O governo republicano tentou, através da lei, evitar que as pessoas do campo e mais pobre votassem, por pensarem que elas se oporiam às suas políticas e seriam influenciadas pelo clero. Claro que Sidónio, como precisava de legitimar a sua posição, alargou o voto, mas passado o sidonismo, os republicanos votaram a restringir o direito de voto, fazendo com que votassem, principalmente, as pessoas da cidade e com instrução, que era onde eles pensava ter, e tinham mesmo, mais apoiantes. Mas chamar democracia a isto, enfim...

Por vezes os comentados que insistem em dividir a América rural da America urbana parece-me que gostava de proceder como os dirigentes da nossa 1.ª República: dar voto só nos locais onde lhes parecesse que venceriam.

Mas, mesmo que esta tese reducionista de que só os não muito inteligentes votariam em Bush (partilhada pelo que parece até por Vital Moreira) fosse verdade, será que a democracia estaria em perigo. Será que aqueles que são "grunhos" não podem decidir também o destino do seu país? Isto faz-me lembrar o que li num livro de José Rodrigo Ferreira, A Democracia na Grécia Antiga (Coimbra, Minerva, 1990) sobre as críticas que os coevos faziam à democracia ateniense de ser incompetente porque com o seu sistema de tiragem à sorte para muitos dos cargos políticos, pessoas incapazes poderiam ir para lugares de decisão. Diz Ribeiro Ferreira (p. 207):

Se passarmos agora a analisar a acusação de incompetência, um pouco de reflexão permite concluir (...) que a ignorância não era assim tão supina nem apresentava consequências da gravidade que apregoam.

A tiragem à sorte para os cargos que (...) era uma das marcas distintivas da democracia ateniense, dá (...) de algum modo razão à denúncia. Observe-se, contudo, que, além de a incompetência não ter sido assim tão grave e danosa, a democracia criou um conjunto de medidas e mecanismos que plhe permitissem manter o princípio da tiragem à sorte que considerava essencial, mas lhe minorassem os riscos daí derivados: a colegialidade que atenuava a gravidade de um possível erro e precavia contra a incompetência ou pior qualificação de alguns elementos; a obrigação de os futuros magistrados se sujeitaram, antes da posse, a juramentos e à verificação dos seus títulos e comportamento cívico; não aplicação de tiragem à sorte em campos - como é o caso dos cargos militares ou financeiros -, em que a colegialidade não era possível ou em que determinada qualificação era requerida.

Tal como a acusação de incompetência à antiga democracia directa grega é injusta (de modo geral), também a imputação de que a América rural que elege Bush é inculta e incapaz de discernir o que é o melhor para a América é também desajustada. A insistência nesta tecla da América profunda serve, para estes analistas, não para descrever um facto, mas para desqualificar a escolha de Bush. E isso é, no mínimo, de uma total desonestidade intelectual. Os valores "progressistas" per si não são melhores do que os valores "conservadores". E isto é uma coisa que a esquerda, tanto americana como europeia, ainda não compreendeu.

Post scriptum. No decorrer da escrita deste artigo, Kerry telefonou a Bush, reconhecendo a sua derrota. Bush é o vencedor, sem qualquer dúvida.

Será que vão falar ainda de legitimidade?

Consulto o sítio da CNN sobre as eleições americanas e vejo que, em voto popular, Bush tem mais 3 522 952 votos do que Kerry.

Será que se Kerry ganhar no Ohio, o que é improvável, ouviremos os suspeitos do costume dizer que ele não terá legitimidade porque não ganhou no voto popular?

Nas eleições de 2000, e nos dias anteriores a estas, ouvimos os maiores disparates sobre o assunto, próprios de quem ignora o que é um sistema eleitoral federal (ignorando também que os sistemas, por exemplo, da França ou da Inglaterra também são proporcionais quanto aos lugarees do parlamento).

Todas estas acusações não tinham fundamento algum, pelo que no caso de Kerry ganhar o Ohio, ele teria toda a legitimidade do mundo para governar. Mas estou certo que não ouviríamos um um único pio dessas carpideiras...

Os democratas têm que ter paciência, daqui a 4 anos haverá outras eleições. Eu há vinte anos que não consigo eleger um presidente do meu gosto aqui em Portugal (não, nem o Sampaio). Espero em 2006, eleger um (seja ele quem for desde que não seja de esquerda, por isso tanto votarei no Cavaco, no Santana ou no Marcelo, é-me indiferente. É claro que o Freitas está fora de questão).

Noite divertida

Ainda, a esta hora, não se tem confirmação oficial da vitória de Bush, mas ela é mais do que provável.

Até às 4h da manhã estive a ver a televisão e a acompanhar as eleições pela Internet, neste último caso, sobretudo pela CNN e a CBS. Nas TVs vi as portuguesas e também as internacionais, proporcionadas pela TV Cabo. Não deixei de ver a TV5 e aí os meus momentos de divertimento atingiram o máximo. A estupefacção, a incredulidade estavam estampados na cara da maioria dos que lá falavam. Aliás, o optimismo pró-Kerry de algumas televisões no início da noite foi-se desvanecendo para, às 4 da manhã, os comentadores já davam como mais do que provável a vitória do Bush.

Não dei por perdido o tempo passado em frente à TV. Mas, o melhor de tudo, foi poder ter acompanhado com, mais ou menos, os mesmos dados de que aqueles que dispunham as TVs portuguesas. E ao mesmo tempo ir procurando nos resultados na net das tendências nos estados que estavam a ser apurados. Por exemplo, no caso da Florida, a tendência desde o início indicava que Bush estava a fazer melhor do que em 2000. E isso, também deu para animar a noite, pois não estava apenas dependente da TV. As novas de tecnologias são realmente fascinantes.

Ao acabar este artigo, ouço que Bush assegurou os 20 eleitores do Ohio. Isto é, Bush venceu.

Post scriptum. O fórum da TSF continua a ter os mesmo grunhos do costume. Intervenções inteligentes não abundam por lá. Mas, hoje, dá-me gozo. Ah, e há gente que se diz já só anti-americanos e não só anti-Bush. Mas, como se já não soubessemos (é a mesma coisa com os anti-semitas que se disfarçam de anti-sionistas).

terça-feira, novembro 02, 2004

Liberdade de expressão em perigo

O realizador holandês Theo Van Gogh foi assassinado. O suspeito é um homem com dupla nacionalidade marroquina e holandesa.

Coincidência ou não, o realizador tinha sido ameaçado de morte por islamitas devido ao seu filme "Submission" que enfureceu alguma da comunidade muçulmana na Holanda.

Se foi este o caso, Van Gogh pagou com a vida o crime de blasfémia. E isto é que é muito grave para a liberdade de expressão na Europa.

É preciso começar a ter em atenção casos como este. Se não, a Europa estará a transformar-se na Eurabia (e a Oriana Fallaci então estará cheia de razão).

A ler..

Este editorial no Le Figaro. De facto, a vitória de Kerry não irá, como num passe de mágica, repor as relações Estados Unidos - Europa nos termos que muitos europeus querem. Esperar isso é nada conhecer dos EUA.

É hoje o dia...

... mas apenas para os americanos, pois só eles é que votam nas eleições. Espero que Bush ganhe, mas se não o fizer... paciência. Afinal, não sou cidadão dos Estados Unidos.

segunda-feira, novembro 01, 2004

Terramoto de 1755

Em 1 de Novembro de 1755, pouco depois das 9 horas da manhã, há precisamente 249 anos, Lisboa foi quase toda ela destruída por um dos mais violentos sismos de que há memória e registo. A sua violência impressionou toda a Europa, tendo várias personagens ilustres da cultura europeia escrito sobre ele, sendo também ponto de partida para várias reflexãos filosóficas. Goethe (1749-1832) escreveu, alguns anos depois, que "porventura em algum tempo o demónio do terror espalhou por toda a terra, com tamanha força e rapidez, o arrepio do medo".

Mas, talvez, o caso mais conhecido seja o de Voltaire (1694-1778) que foi fortemente influenciado pelo acontecimento e que o aproveitou como um dos seus argumentos para contrariar teorias como a Teodiceia de Leibniz (1646-1716). Volatire escreveu, nomeadamente um longo poema filosófico intitulado Poème sur le désastre de Lisbonne onde ele contesta o absolutismo do axioma "Tout est bien". O poema acaba assim:

Un jour tout sera bien, voilà notre espérance;
Tout est bien aujourd'hui, voilà l'illusion.
Les sages me trompaient, et Dieu seul a raison.
Humble dans mes soupirs, soumis dans ma souffrance,
Je ne m'élève point contre la Providence.
Sur un ton moins lugubre on me vit autrefois
Chanter des doux plaisirs les séduisantes lois:
D'autres temps, d'autres moeurs: instruit par la vieillesse,
Des humains égarés partageant la faiblesse
Dans une épaisse nuit cherchant à m'éclairer,
Je ne sais que souffrir, et non pas murmurer.
Un calife autrefois, à son heure dernière,
Au Dieu qu'il adorait dit pour toute prière:
"Je t'apporte, ô seul roi, seul être illimité,
Tout ce que tu n'as pas dans ton immensité,
Les défauts, les regrets, les maux et l'ignorance.
"Mais il pouvait encore ajouter l'espérance
.

Mas, também em Candide, ou l'optimisme (1759) o terramoto de Lisboa é referido, aliás de um modo bastante irónico (Capítulo VI):

Après le tremblement de terre qui avait détruit les trois quarts de Lisbonne, les sages du pays n'avaient pas trouvé un moyen plus efficace pour prevenir une ruine total que de donner au peuple un bel autodafé; il était décidé par l'université de Coïmbre que le spectacle de quelques personnes brûlées à petit feu en grande cérémonie est un secret infaillible pour empêcher la terre de trembler.
On avait en conséquence saisi un Biscayen convaincu d'avoir épousé sa commère, et deux Portugais qui, en mangeant un poulet, en avaient arraché le lard; on vint liet après le dînerle docteur Pangloss et son disciple Candide, l'un pour avoir parlé, et l'autre pour l'avoir écouté d'un air d'approbation (...). Candide fut fessé en cadence, pendant qu'on chantait; le Biscayen et les deux hommes qui n'avaient pas voulu manger le lard furent brûlés, et Pangloss fut pendu, quoique ce ne soit pas coutume. Le même jour la terre trembla de nouveau avec un fracas épouvantable.(...)

Com a descrição deste auto-da-fé (que se realizou mas apenas a 20 de Junho de 1756), Voltaire faz uma crítica irónica ao optimismo, pois a vítima principal deste auto-de-fé é o filósofo optimista em pessoa, Pangloss, cuja teoria lembra de modo irónico a teodicieia de Leibniz. Voltaire crítica, deste modo, os filósofos que não retiravam das experiências da vida, lições para orientarem as suas teorias.

Também neste trecho, Voltaire aproveita para criticar as práticas absurdas da Inquisição. Aliás, Voltaire detestava muito mais o fanatismo, do que propriamente a religião. Mas isso já é outro conto...

Só para terminar, a célebre frase "Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos" não foi dita pelo Marquês de Pombal, mas sim pelo 1.º Marquês de Alorna, D. Pedro de Almeida Portugal (1688-1756).

Dia de Todos os Santos

O dia de Todos os Santos é uma solenidade celebrada a 1 de Novembro, instituída pela Igreja para venerar todos os seus santos, conhecidos e desconhecidos.

É uma solenidade com base em tradições antigas tantos das igrejas orientais como ocidentais. No início apenas São João Baptista e os mártires eram venerados num dia específico. Mas com as várias perseguições, como por exemplo, as de Diocleciano (imperador de 284-305), iniciadas em 303 e que duraram 10 anos, os números de mártires tornou-se tão grande que era impossível atribuir um dia específico a cada um.

As igrejas orientais tinham uma comemoração conjunta dos santos. Encontra-se a menção de dia comum de veneração num sermão de Santo Efrém (306-373), datado de 373, bem como na 74.ª homília de São João Crisóstomo (347-407), datado de 407. Também o calendário dos caldeo-cristãos, em 411, contemplava já um “Commeratio Confessorum” na sexta-feira a seguir à Páscoa.

No Ocidente, Bonifácio IV (608-615), dedicou ao culto cristão o Panteão de Roma, a 13 de Maio de 610, em honra da Virgem Santíssima e de todos os mártires. A fixação da data da solenidade faz-se com Gregório III (731-741), que consagrou uma capela a todos os santos dentro da Basílica de São Pedro, marcando-a para 1 de Novembro. Gregório IV (827-844) estendeu esta celebração de 1 de Novembro a toda a Igreja Católica, começando pelo Império Carolíngio (que na altura dominava praticamente toda a Europa Ocidental).

A característica mais peculiar desta celebração é a de celebrar num único dia a memória dessa “multidão enorme que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap. 7,9). Segundo a Igreja, a comemoração da memória destes santos justifica-se, pois “as festas dos Santos proclamam as grandes obras de Cristo nos Seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar” (Constituição Litúrgica).

Post-scriptum. O Halloween, festejado a 31 de Outubro, também tem que ver com o Dia de Todos os Santos. É que em inglês, estes dia diz-se All Hollows Days (ou All Saints Day). A véspera, em inglês, diz-se All Hollows eve (ou even em inglês mais antigo). Daí o resultado: (All])hollow(s) + e(v)en. O que se festeja no Halloween é que já é outro coisa à qual não sei responder.