terça-feira, maio 31, 2005

Uns são mais iguais do que outros

Sempre ouvi dizer que o que a comunidade LGBT quer é ser tratada e ter os direitos de toda gente. Mas esta notícia faz-me duvidar. Será que só querem os direitos, mas não os deveres?

Ou será que, tal como dizia Orwell, uns são mais iguais do que os outros?

sexta-feira, maio 27, 2005

Sanidade reencontrada (II)

Também há sinais de bom-senso vindos do Canadá (surpreendente, não?):
Quebec — Quebec has rejected the use of Islamic tribunals, which can be used to settle family disputes, in the province.

In a unanimous vote Thursday, the Quebec legislature passed a motion against allowing sharia to be used in the legal system.

“The application of sharia in Canada is part of a strategy to isolate the Muslim community, so it will submit to an archaic vision of Islam,” Fatima Houda-Pepin, a Liberal member of the legislature, said as she introduced the motion against use of the Islamic law.

“These demands are being pushed by groups in the minority that are using the Charter of Rights to attack the foundation of our democratic institutions.”
Fonte

A frase em destaque demonstra uma característica que se aplica não só aos líderes islâmicos radicais, mas também a muito lideres comunitaristas: a tentiva de controlarem as suas comunidades tirando partido do multiculturalismo, reivindicando excepções culturais para isolarem as suas comunidades e jamais as integrarem na sociedade onde vivem. É que assim podem controlá-las melhor, ao mesmo tempo que exigem aos seus membros que não se afastem do modelo que eles criam para essas comunidades. Quem for diferente é logo acusado de trair os seus. Por isso é que considero o multiculturalismo uma forma de totalitarismo pois visa suprimir a identidade individual dos membros das suas comunidades.

quinta-feira, maio 26, 2005

Sanidade reencontrada

A associação britânica de professores AUT revogou a decisão de boicotar duas universidades israelitas.

É bom saber que, por vezes, o bom-senso prevalece.

sexta-feira, maio 20, 2005

Relativismos...

Como se sabe, nas sociedades ocidentais, a homofobia e a violência contra mulheres são crimes com enorme repercussão mediática e, normalmente, severamente punidos. Mas, em certos países civilizadíssimos da nossa querida União Europeia, parece que pode haver excepções. Quais?

Bem, para saberem, aconselho a leitura deste artigo, When is it politically correct to beat gays and kill women?".

Parece que estes crimes são apenas injustificáveis quando praticados por brancos. Afinal, tudo é relativo, não é verdade?

quinta-feira, maio 19, 2005

Festival Eurovisão da Canção

Pelo que parece, hoje, em Kiev, realiza-se a semi-final do 50.º Festival Eurovisão da Canção e nós participamos com um grupo chamado 2B com uma canção que, francamente, nunca ouvi.

Só como aparte, que diferença há em relação há 30 anos atrás. O Festival da Canção da RTP, primeiro, e o Festival da Eurovisão, depois, eram assuntos e momentos televisivos importantes. Gradualmente, caíram, ambos, numa enorme irrelevância. O primeiro morreu, o segundo arrasta-se cada vez mais levado para leste.

Mais do que estar muito interessado nisto, li no Jornal de Notícias que há polémica por a canção ir ser cantada quase toda em inglês. Não é por nada, mas considero isto um grande provincianismo. A mim não me incomoda nada que haja portugueses a cantar em inglês, penso apenas que no caso do festival da Eurovisão é uma perda de tempo. É uma perda de tempo porque nós nunca ganharemos este Eurofestival. Por isso, porquê enviar uma canção em (mau?) inglês, que se vai fundir num imenso mar de mediocridades, em vez de mandarmos uma canção em português que, pelo menos, se distinguiria por isso?

Há dezenas de anos que ouço teorias sobre as músicas, mais ou menos festivaleiras, que teriam hipótese de fazer boa figura no Eurofestival. É tempo absolutamente perdido. Mais valia tentarem levar uma canção razoável, em português, marcar o ponto e "ala que se faz tarde" pois a irrelevância do festival não justifica muito mais.

quarta-feira, maio 18, 2005

Ian Curtis - 25 anos depois


Heart and Soul

Instincts that can still betray us,
A journey that leads to the sun,
Soulless and bent on destruction,
A struggle between right and wrong.
You take my place in the showdown,
I'll observe with a pitiful eye,
I'd humbly ask for forgiveness,
A request well beyond you and I.

Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.

An abyss that laughs at creation,
A circus complete with all fools,
Foundations that lasted the ages,
Then ripped apart at their roots.
Beyond all this good is the terror,
The grip of a mercenary hand,
When savagery turns all good reason,
There's no turning back, no last stand.

Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.

Existence well what does it matter?
I exist on the best terms I can.
The past is now part of my future,
The present is well out of hand.
The present is well out of hand,

Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.
One will burn, one will burn,
Heart and soul, one will burn.

Ian Curtis, vocalista do Joy Division, suicidou-se, enforcando-se, a 18 de Maio de 1980. Tinha 23 anos.

Notas soltas

O tempo não tem sido muito para dedicar aos blogues, mas mesmo assim não queria deixar de comentar alguns assuntos que se vão passando pelo mundo.

Aborto. Mais tarde ou mais cedo o assunto do aborto vai voltar à agenda política portuguesa (com ou sem referendo). A este propósito, aconselho a leitura de esta notícia. No ano passado, 32% das mulheres que fizeram um aborto em Inglaterra e País de Gales já tinham feito pelo menos um aborto no passado. De notar que a lei inglesa é das mais liberais, pois permite abortos até às 24 semanas, enquanto França e Alemanha vai só até às 12 semanas e a Suécia e Noruega é de 18 semanas. Blair recusou a diminuição do limite com o argumento de que não queria "criminalizar as mulheres". O motivo pelo qual as mulheres abortam repetidamente deveria fazer pensar e de qualquer modo mostra que o aborto não éé solução para nada.

Newsweek. Que haveremos de dizer deste "Abu Ghraib da imprensa"? A Newsweek relatou um caso de profanação do Alcorão em Guantanamo, que provocou protestos maciços em vários países muçulmanos que resultaram em pelo menos 17 mortos e dezenas de feridos, para além de ter, ainda mais, manchado a imagem dos EUA nesses países. Esta informação baseava-se na fuga de informação proporcionada por alguém no interior da administração que depois já não se lembrava se aquilo que tinha dito teria sido mesmo assim. Entretanto o mal já estava feito. Agora a Newsweek arrepende-se. Como se diz em português, "agora é tarde, Inês é morta". E a credibilidade da Newsweek também. A vontade de escrever qualquer coisa contra Bush leva-os a nem sequer verificar as alegações ou a acreditar cegamente em fontes anónimas.

Israel-Palestina. Os sermões de sexta-feira na televisão oficial da Autoridade Palestiniana são verdadeiramente elucidativos da dificuldade que será fazer a paz na região. E como se pode ver (versões em inglês e francês), a culpa não será, principalmente, dos israelitas enquanto a Autoridade Palestiniana continuar a tolerar e (provavelmente) fomentar este discurso de ódio contra os judeus (os manuais escolares palestinianos também são elucidativos). Abu Mazen tem ainda muito a fazer. Será capaz (ou, por outra, terá essa vontade)?

terça-feira, maio 17, 2005

Educação blairista

Tony Blair pode não ser considerado como um verdadeiro trabalhista por muita gente de esquerda. Mas a verdade é que, no domínio da educação, a sua política tem seguido os princípios mais dignos ditados pelos "cientistas de educação".

Por isso esta notícia não me surpreende nada:

Examiners marking an English test taken by 600,000 14-year-olds have been told not to deduct marks for incorrect spelling on the main writing paper, worth nearly a third of the overall marks.

The rule, issued by the Qualifications and Curriculum Authority, means that pupils could spell every word wrongly in the most significant piece of writing that they are required to do and yet still receive full marks.

Ministers are particularly concerned about exam results this year, having failed to achieve their 2004 target of 75 per cent of 14-year-olds reaching the level expected in English. Just 71 per cent reached the standard, despite a multi-million pound Government strategy aimed at improving lessons in secondary schools.

Muito guterrista esta solução: os alunos não sabem escrever correctamente, então não se avalia a ortografia. Problema resolvido!

sexta-feira, maio 13, 2005

A mesma retórica; os mesmos efeitos

Toda a gente se lembra da retórica francesa acerca da "excepção cultural" nas discussões sobre comércio livre na OMC. Mas, esse mesmo país que exige uma excepção para os bens culturais é também um país terrivelmente burocrático . Por isso, isto não me admira mesmo nada:

Le mal français : François Pinault renonce, devant les lourdeurs administratives, à installer sur l'île Seguin sa fondation privée consacrée à l'art moderne, qui rejoindra l'Italie ;

O presidente francês aconselha o voto no "sim" no referendo ao tratado constitucional porque estes não é "liberal". Realmente um país com esta burocracia não pode ser um país liberal. E provavelmente, também é um país que gosta de cultura subsidiada e não feita por privados de modo independente. Pelo menos é o que parece.

Até parece Portugal.

segunda-feira, maio 09, 2005

Dia da Vitória na Europa

Ontem e hoje comomerou-se o Dia daVitória na Europa, o fim da Alemanha nazi. Enfim, 60 anos passaram, mas a polémica não. Nunca percebi porquê.

Está claro que o nazismo era uma ideologia perversa e só podemos congratular-nos com o seu fim. Mas, também, está claro que os países que ficaram sob domínio da URSS, não foram libertados nessa altura, pois, nos dois/três anos seguintes os soviéticos trabalharam para estabelecer ditaduras comunistas.

Eu, durante os anos oitenta, conheci polacos que viviam na Polónia e posso dizer que eles estavam longe de gostar do regime em que viviam. Depois da queda do muro, conheci húngaros, alemães de leste, romenos, gente com a minha idade, isto é, que viveram, pelo menos até aos 25 anos sob ditadura comunista. O mínimo que posso dizer é que, apesar das dificuldades que a imediata situação pós-comunista lhes criou, nenhum tem saudades da época das repúblicas socialistas.

Ninguém põe em dúvida o contributo dos soviéticos na derrota da Alemanha nazi. Mas aqueles que criticam os EUA por não terem entrado na guerra senão em Dezembro de 1941, devem também lembrar-se de que a União Soviética tinha, em 1939, um pacto com a Alemanha naci, pacto esse que facilitou a derrota da Polónia, que os soviéticos invadiram a Polónia e partilharam-na com os alemães, que, ainda em 1939, os soviéticos invandiram a Finlândia e só entraram na guerra porque os alemães os invadiram.

Os soviéticos contiveram grande parte do exército nazi e, depois da batalha de Kursk em Julho de 1943, a sorte da frente leste estava praticamente selada. Mas a conquista de Berlim demonstra a total irracionalidade e desprezo pela vida humana que Estaline tinha, mesmo tratando-se dos seus próprios soldados (que assim também foram vítimas da ditadura feroz que os comandava).

Obviamente, tudo isto não deve ofuscar um facto verdadeiramente importante: a queda da Alemanha nazi. Mas, também não podemos esquecer a história do que se passou após.

quinta-feira, maio 05, 2005

E como será o prazo de pagamento

Leio na TSF Online que a Procuradoria-Geral da República está com falta de dinheiro que até põe em causa a conclusão de alguns processos. E dá-se um exemplo:

Um dos mais complicados dos últimos anos está em risco de não ser terminado por falta de dinheiro. Trata-se de uma burla ao IVA, onde o Estado português perdeu milhares de euros.

Neste caso há arguidos portugueses e estrangeiros, sendo preciso traduzir os três volumes da acusação para norueguês, o que está a prejudicar a fase de instrução.

E pornto, pensam os meus leitores, lá voltamos à tradução. É isso, mas neste caso numa outra vertente. O do mundo real em que os tradutores trabalham.

Já tenho muitos anos de tradução no mercado português e, francamente, se algum tribunal/ministério público português me pedisse para fazer uma tradução deste tipo, duvido que aceitasse. Mas antes de dizer porquê, façamos uma pequena digressão., pois não sei se toda a gente compreende todas as implicações que traduções deste género trazem consigo.

Um processo de burla ao IVA com três volumes é um verdadeiro projecto de tradução. Para além de não saber quantas páginas e/ou palavras representarão esses volumes, tudo apontam para ser uma quantidade considerável. Para além do seu tamanho, que não é pormenor dispiciendo, há ainda a questão da complexidade. Já perdi a conta às traduções jurídicas que fiz entre o francês e o português (pedidas por uma das partes ou por tribunal francês através de uma agência de tradução). Desde a requerimentos a recursos, passando por sentenças diversas (de 1.ª instância ou de relação) já fiz um pouco de tudo. E, apesar da frança influenciar quase tudo em Portugal, a nível do Direito há muitas diferenças e, frequentemente, não correspondência directa. Torna-se necessário explicar, compreender cada um dos sistemas para depois poder transmitir o que está lá dito. Ainda para mais tem que se usar de um rigor terminológico enorme, para não estarmos a dizer barbaridades.

Voltemos aos tais três volumes para norueguês. Primeira dificuldade: a língua de chegada. Quantos tradutores de português-norueguês competentes haverá (tanto em Portugal, como na Noruega, como em qualquer outro lado; as novas tecnologias eliminam o problema da distância)? Depois, se o processo é urgente, que prazo terá o tradutor? Se o prazo é curto, dar o trabalho a mais do que um tradutor? Mas, devido à complexidade, como controlar a homogeneidade do trabalho, consistência terminológica? Certamente haverá um coordenador. Ou seja, na verdade, não pode ser nada barata esta tradução. E não falei ainda do caso da tarifa a aplicar, pois, suponho que sendo uma língua não muito solicitada, há tendência para ter um custo mais caro.

Por tudo isto chego a ponto de partida: quem poderá aceitar este trabalho. É que perante este rol de premissas, é preciso garantia de que o pagamento será efectuado e em devido tempo. É que o tradutor, habitualmente, não tem outros meios de rendimento. Será que a Procuradoria aceita pagar adiantado, parcialmente. Ou, depois do trabalho efectuado, o pagamento ir-se-á arrastar durante meses? É que eu conheço casos de tribunais que não pagaram ainda pequenos trabalhos de tradução. Como será o caso da Procuradoria?

É que isto de tradução não é só uma questão de dinheiro, mas também o é.

Traduções uma vez mais

Columbo - Gosto de ver na RTP Memória os episódios desta série que passava na TV portuguesa nos anos 70. Já na altura era uma das minhas séries preferidas. Ontem, quando via o desenlace do episódio Columbo pede desculpa ao principal suspeito pela "apreeensão do seu filho" (segundo a legenda). Em inglês, um dos sentidos de "apprehension" é do acto de capturar, prender, deter alguém. "Apreensão" em português, e neste contexto legal, tem um sentido completamente diferente e não se aplica a pessoas. Mas, estes erros ocorrem muito frequentemente e para tal contribuem muitas razões (embora a maioria não possam servir como desculpa).

Por um lado, nunca sabemos quanto tempo foi dado ao tradutor (que neste caso faz as legendas) quanto tempo foi dado e como foi dado o trabalho. Por vezes, a pressão não é boa conselheira e não se consegue fazer uma revisão como deve ser. Mas, por outro lado, também pode ser indício de falhas de formação ou experiência. Não acredito que os tradutores actuais não estejam alertados para os casos dos chamados "falsos amigos". Até naquela malfadada disciplina de Técnicas de Tradução (malfadada porque normalmente dada por professores de língua que de tradução ou de prática de tradução conhecem pouco), se dá atenção e eles. Mas o modo, maioritariamente, descontextualizado, sem relação com os problemas e/ou dificuldades de tradução (problemas e dificuldades são, para mim, conceitos diferentes que mais tarde poderei explicar o que entendo por eles) que os tradutores encontram no mundo real não ajuda muito. Mas a formação nas faculdades nem sempre é melhor.

Assim, o que penso que este tipo de erros pode indiciar é mais uma falha na formação do tradutor, em fazer compreender aos candidatos a tradutores que eles são muito mais do que meros transpositores linguísticos. Que para traduzir é preciso, para além de cultura geral, compreender que tipo de discurso/texto temos pela frente. Que a obtenção de informação é fundamental. Que a pressão no mundo real da tradução é enorme e por vezes não há muito tempo para reflectir.

Não aponto este tipos de erros só para dizer que os outros cometem erros. Isso seria muito pouco produtivo. Toda a gente que traduz já cometeu erros. O meu objectivo é outro. Quando um tradutor pega num trabalho, deve estar consciente das dificuldades e problemas que essa tradução vai colocar. Sem esta consciencialização não é possível fazer um bom trabalho e até em pequenas traduções aparatemente fáceis se cometerão erros.

terça-feira, maio 03, 2005

Variações...

Ao ler esta notícia pareceu-me notar algo estranho. É claro que o estranho estava no título:

Canal Plus acusado de espionar trabalhadores

O estranho, como é bom de ver, é o verbo "espionar", em vez do muito mais usual "espiar". Não é que o verbo não exista em português, existe sim. Aliás, em francês, também temos "épier" e "espionner" com sentidos que se interpenetram, mas não totalmente coincidentes.

De qualquer modo, penso que quem traduziu a notícia (a redigiu a partir de material francês), traduziu e pronto, não pensou mais no assunto. O problema, se é que o é, é o estranhamento que provocará em muita gente, que achará o verbo, pelo menos, um pouco esquisito.

E porque se dá esta sensação de estranhamento? Apenas porque o verbo "espionar" ocorre, no português moderno (e provavelmente também no antigo) muito menos vezes do que o verbo "espiar". Sentimos isso intuitivamente, mas, também de um certo modo, podemos tentar confirmar tal intuição com factos. Para isso, podemos utilizar, por exemplo, o corpus CETEMPúblico que dispõe de cerca de 190 milhões de palavras de edições do Público (entre 1991 e 1998).

Numa rápida consulta, "espiar" teve 161 ocorrências, enquanto "espionar" teve apenas 5 ocorrências. Para confirmar estes resultados procurei outras formas verbais dos dois verbos e os resultados foram os seguintes (em ocorrências):

espiou - 17
espionou - 1

espiado - 35
espionado - 1

espiava - 20
espionava - 0

Aliás a própria notícia que eu refiro, não volta a utilizar o verbo em questão, utilizando formas verbais do verbo "espiar". "Espionar" só mesmo no título.

Ora lendo as várias notícias que saíram sobre o assunto nos media franceses (e que devem ter sido utilizados para fazer anotícia portuguesa) vejo que o verbo "espionner" (nas suas diversas formas) foi o mais utilizado, seguido do verbo "surveiller".

Apesar de alguns puristas acharem que "espionar" é um galicismo; o facto é que existe em português, está dicionarizado e foi (e será) utilizado por escritores. Penso que é perfeitamente legítima a sua utilização. Mas, neste caso em particular, tratou-se apenas de uma tradução para o "equivalente" mais próximo, não uma escolha deliberada e motivada para um qualquer fim.

Logicamente que há muitos conceitos de tradução, nem toda a gente entende o mesmo quando se fala de tradução. Não faz sentido recuarmos aqui à célebre dicotomia de tradução "palavra a palavra" ou tradução do "sentido", já discutida, embora em moldes e contextos completamente diferentes por Cícero e São Jerónimo, mas, apesar disso, quando se faz tradução tem que se fazer escolhas. Para mim, no caso da comunicação social, essas escolhas devem ser influenciadas por a finalidade que se traduz. Pode argumentar-se que a notícia não é uma tradução, mas redigida a partir de textos em língua estrangeira. Mas traduzir também é redigir. Quem pensar que traduzir é uma mera transcrição de um texto enunciado/escrito num determinado código linguístico (língua de partida) para um outro código linguístico (língua de chegada) não percebe nada de tradução.

Por isso me apeteceu falar disto agora. Nenhuma notícia é pequena de mais ou demasiado insignificante para que não se tenha o máximo de atenção ao que se faz. Neste caso, o sentido não é alterado. Mas, outras escolhas deste tipo, devido a proximidades de formas, por exemplo, por vezes alteram significativamente o sentido. Por pequenas coisas como estas é que eu estou, normalmente, de pé atrás em relação a muita coisa que se lê/vê nas páginas/ecrãs das secções "internacional/mundo, etc..." dos media portugueses.

Há muita gente que, embora possa ter qualidade, tem muito pouca experiência e está a fazer notícias nos vários órgãos de comunicação. Por outro lado, muitos jornalistas sobrestimam as suas capacidades linguísticas e já vi alguns espalharem-se ao comprido em determinadas situações.

É certo que já não me devia incomodar com isto, tantos são os exemplos, mas, enfim, hoje apeteceu-me falar.

domingo, maio 01, 2005

Aviso aos interessados

Para quem não saiba a Queima das Fitas do Porto já começou. Não que isso tenha muita importância para mim - nem quando frequentava a faculdade perdi muito tempo com isso -, mas é sou para lembrar os distraídos que nem sequer pensem em circular na Baixa do Porto na próxima terça-feira. Aquilo faz perder a paciência ao mais santo dos homens. Desde os engarrafamentos até às figurinhas tristes feitas pelos futuros líderes da nação, tudo o espectáculo é mau de mais para ser verdade.

Hoje de manhã, à volta do estádio do Bessa, tive a oportunidade de comprovar o comportamento por vezes pouco civilizado deste pessoal quando anda junto em grande número. Aliás quem se lembrou de fazer a Missa da Benção das Pastas num estádio que fica dentro de uma zona já densamente habitada (e com poucos espaços de estacionamento para tanta gente) merecia um prémio.

Mas tudo isto deve ser do meu mau humor em relação às tradições académicas. É que sempre as achei uma coisa muito triste e estúpidas, além de perfeitamente dispensáveis.