quinta-feira, janeiro 06, 2005

O Plano Ibarretxe

Já alguns dias que andava para escrever sobre este assunto que, em Portugal, apesar de ter sido objecto de algumas referências, tem passado relativamente incógnito o que não deixa, talvez, verificar a relevância que este assunto pode vir a ter no futuro de uma Espanha unida tal como a conhecemos agora.

É certo que há muitas portugueses que, apesar de irem muitas vezes a Espanha, têm um total desconhecimento do país, pensando que se trata de um estado-nação como é o caso de Portugal. Até já assisti a casos, na Galiza, de portugueses que, passando a fronteira do Minho, desatam a falar "portunhol" para uma população que fala maioritariamente galego e que, por isso, nos compreendem com grande facilidade.

É que se os espanhóis desconhecem Portugal, os portugueses não desconhecem menos a Espanha.

A formação da Espanha como país foi um processo que apenas se concluiu no século XV, iniciado com o casamento de Isabel e Fernando, os reis católicos, que uniram o Reino de Castela e a Coroa de Aragão, respectivamente, e completado em 1492 com a conquista definitiva do reino de Granada.

Com a Reconquista, formaram-se vários reinos cristão independentes que conduziram a guerra uma vezes independentemente, outras em conjunto e aindas outras vezes se guerrearam mutuamente. Nesse processo, apareceram e desapareceram reinos como os da Galiza e Leão, mas que deixaram, por exemplo, línguas próprias, neste caso o galego ou o asturo-leonês, que embora, durante séculos ofuscadas pelo castelhano, conseguiram sobreviver.

A Espanha é por isso um moisaco de nações unidas sob a coroa de Madrid. Aliás, já em épocas medievais, os reis de Castela revelaram uma tendência centrípeta, considerando-se como os legítimos descendentes dos reis visigóticos que tinham unido toda a Península Ibérica durante o séc. VII, depois de conquistarem as possessões mediterrânicas dos bizantinos. Por isso, sempre tentaram unificar a península sob a sua coroa, embora durante séculos não tivessem tido os meios para o fazerem.

Aliás, de notar, que a palavra "Espanha" em tempos medievais não denotava um determinado país, mas sim toda a península ibérica. Nas línguas romance, "Espanha/España" era o equivalente do latim "Hispania".

Bem, toda esta introdução foi para dizer o óbvio: há várias nações em Espanha e, dentro dessas nações, há gente que está descontente com o status quo actual. Como português, isto é, como cidadão do único reino (apesar de ter sido o último a ser fundado) que resistiu à força crentípeta de Castela que, efectivamente, absorveu os restantes estados que, só a partir de 1975, com a queda do franquismo, começaram a ter alguma autonomia, não posso ser um defensor à outrance da unidade absoluta do estado espanhol. Todavia, penso que, nos tempos actuais, o separatismo puros e simples também não é resposta aos problemas de Espanha. Provavelmente, a roda da história já passou por aí (e não sei quando voltará a passar...).

O Lehendakari de Euskadi (presidente do governo basco), Juan José Ibarretxe propôs um novo estatuto político para o País Basco que prevê, nomeadamente, uma "livre associação com o estado espanhol". Este estatuto foi aprovado, um pouco de surpresa, em 30 de Dezembro passado no parlamento basco. O PSOE e o PP estão contra, mas o plano passou graças ao apoio dos 3 deputados do ex-Batasuna(isto é, do braço político da ETA). Quais são os perigos desta acção?

FA no Quinto dos Impérios assinala o excelente editorial no ABC de ontem. Passo a citar alguns trechos deste editorial (destaques meus):

LA rueda de prensa que ayer ofreció el lendakari Ibarretxe demuestra que los nacionalistas han detectado con su agudeza habitual la fragilidad de la respuesta dada por el Gobierno de José Luis Rodríguez Zapatero a la aprobación parlamentaria de la propuesta del nacionalismo vasco. Mientras el jefe del Ejecutivo se recrea en anunciar obviedades -que dirá a Ibarretxe que no negociará, que el plan no se aprobará en el Congreso-, el lendakari ha aumentado la presión política para dejar bien claro que la iniciativa es suya y que su oferta a Zapatero no es para negociar el contenido del plan si no cómo se pone en marcha pacíficamente. Hechos consumados. Y es en este punto donde el lendakari empezó a descubrir sus cartas más duras, preguntándose capciosamente si, a falta de negociación, la solución del conflicto será «a tortas».
(...)
EN estas condiciones, el lendakari se crece, más aún cuando contempla que cuenta como apoyos en el Congreso a los socios del Gobierno del PSOE. Ibarretxe no puede sentirse disuadido por la admonición del jefe del Ejecutivo Gobierno cuando una parte influyente de la actual mayoría que apoya a Rodríguez Zapatero ya ha expresado su respaldo al plan soberanista. Esta situación empieza a complicar más si cabe el discurso del PSOE, porque las razones que oponga al plan Ibarretxe son aplicables a las pretensiones del tripartito catalán y en buena parte al sucedáneo nacionalista alumbrado por el socialismo vasco.

Isto é, Ibarretxe diz que o plano é para para a frente a bem ou a mal. Que belo presente para a ETA. Se o plano Ibarretxe falhar, como deve ser o caso, até porque, parece, é anticonstitucional, a ETA pode dizer, que a luta armada, tal como ela a defende, é a única hipósete para alcançar a desejada independência do País Basco.

Em segundo lugar, o PSOE está atrapalhado, porque os seus aliados catalães podem vir a criar problemas. Aliás, já lhe criaram. Juan Puigcercós, da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), ameaça retirar-lhe o apoio se Zapatero não aceitar discutir o plano Ibarretxe. Puigcercós alargou mesmo a ameaça ao PSC (socialistas da Catalunha). A ver vamos como Zapatero descalçará esta bota.

No meu entender, este assunto devia ser seguido com maior atenção aqui em Portugal. Por um lado, para os portugueses compreenderem, de uma vez por todas, que a Espanha não é um monólito (e não por causa das imigrações, mas pela sua própria formação). Talvez ganhassemos alguma coisa se assim víssemos a Espanha. Em segundo lugar, embora não acredite que se passe o mesmo que se passou na ex-Jugoslávia (onde a pressa foi má conselheira), temos de estar informados do que se passa aqui ao lado. Afinal estamos na mesma "jangada de pedra".

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Pois é... devíamos estar muito atentos è possível desagregação da Espanha tal como a conhecemos. É, aliás, um dos temas que dominava alguma comunicação social em Agosto passado, a partir da vitória do PSOE e das mudanças políticas na Catalunha. Do ponto de vista português, isso até poderia ser bom, porque quebraria o 'mito' da Espanha única

1/07/2005 11:54:00 da manhã  
Blogger JoaoViriato said...

Mas que grande artigo! É exactamente como eu penso. Fiquei abismado com as semelhanças...

Já fiz a devida referência no meu blogue ;)

1/07/2005 03:06:00 da tarde  
Blogger António Viriato said...

Texto interessante, convergente com o sentido de um outro que coloquei, em Outubro de 2004, no Alma Lusíada. É pena que muitos portugueses se alheiem deste problema e tendam a ver a Espanha como um bloco monolítico, que nunca o foi e que poderá a vir a desagregar-se um dia, a bem, se prevalecer o bom senso ou a mal, numa nova guerra civil, se aquele escassear.

1/08/2005 12:37:00 da manhã  
Blogger JoaoViriato said...

Olha... outro Viriato...

1/08/2005 10:51:00 da manhã  
Blogger Miss jane said...

AV,無碼,a片免費看,自拍貼圖,伊莉,微風論壇,成人聊天室,成人電影,成人文學,成人貼圖區,成人網站,一葉情貼圖片區,色情漫畫,言情小說,情色論壇,臺灣情色網,色情影片,色情,成人影城,080視訊聊天室,a片,A漫,h漫,麗的色遊戲,同志色教館,AV女優,SEX,咆哮小老鼠,85cc免費影片,正妹牆,ut聊天室,豆豆聊天室,聊天室,情色小說,aio,成人,微風成人,做愛,成人貼圖,18成人,嘟嘟成人網,aio交友愛情館,情色文學,色情小說,色情網站,情色,A片下載,嘟嘟情人色網,成人影片,成人圖片,成人文章,成人小說,成人漫畫,視訊聊天室,性愛,正妹牆,情色視訊,愛情小說,85cc成人片,成人貼圖站

5/19/2010 08:23:00 da tarde  
Blogger 日月神教-向左使 said...

AV,無碼,a片免費看,自拍貼圖,伊莉,微風論壇,成人聊天室,成人電影,成人文學,成人貼圖區,成人網站,一葉情貼圖片區,色情漫畫,言情小說,情色論壇,臺灣情色網,色情影片,色情,成人影城,080視訊聊天室,a片,A漫,h漫,麗的色遊戲,同志色教館,AV女優,SEX,咆哮小老鼠,85cc免費影片,正妹牆,ut聊天室,豆豆聊天室,聊天室,情色小說,aio,成人,微風成人,做愛,成人貼圖,18成人,嘟嘟成人網,aio交友愛情館,情色文學,色情小說,色情網站,情色,A片下載,嘟嘟情人色網,成人影片,成人圖片,成人文章,成人小說,成人漫畫,視訊聊天室,性愛,性感影片,正妹,聊天室,
情色論壇

6/16/2010 11:07:00 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home