quinta-feira, março 31, 2005

Fim, pelo menos por enquanto...

A minha crescente falta de tempo não podia deixar de ter como consequência um certo abandono do blogue como se verificou nos últimos dias. Ora, eu entendo que num blogue individual é absolutamente necessário publicar diariamente ou quase sempre diariamente e isso muito dificilmente acontecerá nos próximos tempos.

Por esse motivo, tomei a difícil decisão de suspender este blogue. De qualquer forma esta decisão não marca o meu abandono da blogosfera, visto que continuarei a escrever n' O Insurgente e, a outro nível, no meu outro blogue Humanae Litterae, onde espero publicar, pelo menos semanalmente, alguns artigos que estão em preparação.

A todos os que me visitam, obrigado. Continuaremos a nos vermos (lermos)...

terça-feira, março 29, 2005

Estado de graça

Segundo a TSF os portugueses estão satisfeitos com José Sócrates e, segundo Miguel Coutinho, ouvido pela TSF, o governo está em estado de graça.

Que o governo esteja em estado de graça por parte da população, parece-me absolutamente normal. Afinal foi o povo que lhe deu a maioria absoluta e, por outro lado, o governo até agora também ainda não teve tempo para fazer fosse o que fosse.

Só espero é que o estado de graça dado pelo povo não se estenda também à comunicação social. Não que advogue comportamentos agressivos como aquele que os media tiveram em relação a Santana Lopes (apesar deste ter potenciado este comportamento com alguns erros). Espero é que a comunicação social não comece a deixar passar, ou branquear, situações que, se fossem com o PSD, era motivo para desatarem para aí aos gritos estridentes.

Bem, mas se isso acontecer, para isso estão cá os blogs.

sexta-feira, março 25, 2005

Impropérios de Sexta-Feira Santa

V/. Popule meus, quid feci tibi? aut in quo contristavi te? Responde mihi.
V/. Quia eduxi te de terra Aegypti, parasti crucem Salvatori tuo.

C/. Agios o Theos!
Sanctus Deus!
Agios ischyros!
Sanctus fortis!
Agios athanatos, eleison ymas.
Sanctus immortalis, miserere nobis.

V/. Quia eduxi te per desertum quadraginta annis, et manna cibavi te, et introduxi te in terram satis bonam: parasti Crucem Salvatori tuo. C/. Agios o Theos!

V/. Quid ultra debui facere tibi, et non feci? Ego quidem plantavi te vineam meam speciosissimam: et tu facta es mihi nimis amara: aceto namque sitim meam potasti: et lancea perforasti latus Salvatori tuo. C/. Agios o Theos!

V/. Ego propter te flagellavi Aegyptum cum primogenitus suis: et tu me flagellatum tradidisti.

R/. Popule meus, quid feci tibi? aut in quo contristavi te? Responde mihi.

V/. Ego eduxi te de Aegypto, demerso Pharaone in Mare Rubrum: et tu me tradidisti principibus sacerdotum. R/. Popule meus.

V/. Ego ante te aperui mare: et tu aperuisti lancea latus meum. R/. Popule meus.

V/. Ego ante te praeivi in columna nubis: et tu me duxisti ad praetorium Pilati. R/. Popule meus.

V/. Ego te pavi manna per desertum: et tu me cecidisti alapis et flagellis. R/. Popule meus.

V/. Ego te potavi aqua salutis de petra: et tu me potasti felle, et aceto. R/. Popule meus.

V/. Ego propter te Chananaeorum reges percussi: et tu percussisti arundine caput meum. R/. Popule meus.

V/. Ego dedi tibi sceptrum regale: et tu dedisti capiti meo spineam coronam. R/. Popule meus.

V/. Ego te exaltavi magna virtute: et tu me suspendisti in patibulo Crucis. R/. Popule meus.


Tomás Luis de Victoria (1540-1613)
(pdf)

quarta-feira, março 23, 2005

Devagar, devagarinho...

...mas não parado é como anda este blogue ultimamente. A culpa é do trabalho que não me larga (e ainda bem). Mas, prometo, logo que possa, vou voltar a publicar qualquer coisinha com maior regularidade.

No entanto, não quero deixar de notar que o país parece continuar numa espécie de "estado em suspensão". Aparentemente, nada se mexe, nada se passa no país. Espero que seja apenas um impressão minha.

terça-feira, março 22, 2005

Ambicioso e entusiasmante?

David Pontes, director-adjunto do Jornal de Notícias, escreve na secção "Fio de terra" (sem ligação):

Não vale a pena estarmos com meias-medidas: o texto de 20 páginas que José Sócrates leu ontem no Parlamento é um ambicioso e entusiasmante programa de Governo. Ambicioso, porque traça metas bem definidas para tarefas difíceis. Entusiasmante, porque depois de mais de dois anos em que o discurso dominante foi de recriminação do passado e de contenção no presente, as palavaras (sic) de Sócrates vêm cheias de futuro.

Deixando passar o tom panegírico que vem sido habitual na imprensa acerca do governo de Sócrates, eu que ouvi, isto é, que me dei ao trabalho de ouvir um longo e chato discurso pronunciado por Sócrates, não me dei conta destas duas características. Defeito meu? Má-vontade minha em relação ao homem? Talvez.

De facto, Sócrates enunciou uma data de coisas, com uns sound-bytes pelo caminho (as férias judiciais, por exemplo), mas nem uma palavra sobre como conseguir os meios financeiros para sua realização.

Por outro lado, bem pode ter falado no futuro, mas sem a sustentação necessária, é mais ou menos como andar a construir castelos na areia.

Isto é, para mim, Sócrates não disse nada de especialmente digno de registo, limitou-se a dar o rol de coisas que quer fazer (mas que se calhar não sabe como, nem como vai arranjar dinheiro para elas), mas a comunicação social em geral (ver, p. ex., António José Teixeira) ficou em extâse, maravilhada por tanto palavreado oco.

Enfim, cá espero para ver o que o governo realmente faz.

segunda-feira, março 21, 2005

Afinal...

... os homens são melhores condutores do que as mulheres.

Ode da Primavera

Foram-se as neves e aos campos já a relva regressa
e às árvores a folhagem;
a terra muda a sua face, e, deixando as margens,
os rios decrescem.

Uma Graça mais as duas irmãs, nuas, ousam dançar
com as Ninfas.
Não esperes pela imortalidade, adverte-te o ano e a hora
que arrebata o dia criador.

Ao sopro dos Zéfiros, abranda o frio; à Primavera sucede
o Verão parecedouro, e logo
o copioso Outono espalhará seus frutos; de seguida
a bruma inerte regressa.

Porém o suceder das Luas depressa repara os danos vindos do céu.
Mas nós, logo que tombamos
no lugar onde está o piedoso Eneias, o opulento Tulo e Anco,
mais não somos do que pó e sombra.

Quem sabe se à soma dos dias de hoje
juntarão os deuses supernos as horas de amanhã?
Das mãos ávidas do teu herdeiro se escaparão todos os bens
com que o teu ânimo regalaste.

Uma vez morto e ao magnífico julgamento
de Minos submetido,
nem linguagem, nem eloquência, nem piedade,
te farão viver.

Das infernais trevas, nem Diana liberta
Hipólito casto,
nem Teseu das cadeias do Letes consegue soltar
o caro Pirítoo.

Horácio, Odes IV.7 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira)

sexta-feira, março 18, 2005

Em defesa do "Velho do Restelo"

No meu outro blogue, Humanae Litterae publiquei a entrada Em defesa do "Velho do Restelo", que fora publicada, em primeira mão, no O Insurgente.

Um artigo esclarecedor

Via Political Correctness Watch cheguei à leitura deste artigo que fornece, talvez, argumentos mais do que irrefutáveis para recusar a ideia de institucionalização do "same-sex marriage". Bem sei que o problema ainda não se pôs em Portugal, mas não tardará muito...

Como diz o autor, não está em causa uma questão de direitos do hmossexuais, mas uma tentativa de modificar completamente a noção tradicional de casamento de modo a fazer com que ela pareça algo de completa impensável e politicamente incorrecta.

quinta-feira, março 17, 2005

Feminismo e ciência: incompatíveis? - parte II

Na sequência desta minha entrada Feminismo e ciência incompatíveis?, aconselho a leitura deste artigo que põe, nesta questão, os pontos nos ii.

Pelos vistos ainda há esperança. A defesa dos direitos da mulher, como por exemplo a sua não discriminação, não tem que ser incompatível com a ciência. Ainda bem.

O problema é que há muita gente, neste campo, sobrepõe a ideologia à ciência.

Camilo de Castelo Branco (1825-1890)

Passaram ontem 180 anos do nascimento de Camilo de Castelo Branco. Por impossibilidade de tempo, devido a trabalho, não pude colocar ontem uma entrada a assinalar a efeméride, acto totalmente justificado pela importtância de Camilo na história da literatura portuguesa do séc. XIX.

Por isso, embora com um dia de atraso, publiquei no meu outro blog, Humanae Litterae uma pequena nota de comemoração da efeméride.

terça-feira, março 15, 2005

Os idos de Março

Segundo nos diz a História, foi a 15 de Março de 44 a.C., que C. Iulius Caesar, mais conhecido em português como Gaio Júlio César, foi assassinado no Senado Romano. Grande general e político de Roma, mas também um bom escritor, o seu De bello gallico (A guerra da Gália) é um clássico da literatura latina, tinha uma ambição de poder desmedida que chocou com aqueles que ainda sonhavam com uma República oligárquica.

Cícero no seu tratado De Re publica, escrito em 51 a.C., tinha escrito, a propósito do sistema político, o seguinte:

Passados então esses duzentos e quarenta anos de realeza (ou um pouco mais, com os interregnos), de depois da expulsão de Tarquínio, foi tal o ódio que o povo romano tomou ao título de rei, quanto a saudade que sentira depois da morte, ou melhor, da partida de Rómulo. De tal modo que, tal como então não poderia estar privado de um rei, após a expulsão de Tarquínio, não podia ouvir o nome de rei.
(A República II.30.52, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira)

De facto, para os partidários das república a ideia de um só homem governar, à sua discrição, a cidade de Roma era absolutamente repugnável. Mas César, cabeça de fila dos popolares, no fim da guerra civil, no fim da guerra civil que o opôs ao Senado, cujo exército tinha como general Pompeu, tinha acumulado tanto poder que faziam dele o chefe incontestado de Roma, com um poder até aí pouco visto (apesar de, entre 82-79 a.C., Sula ter exercido o poder de um modo monárquico), mas mantendo a fachada republicana do Estado. Mas depois das convulsões da década anterior e da guerra civil acabada pouco antes, fez com que alguns republicanos, chefiados por Bruto e Cássio, decidissem avançar. Assim chegamos aos idos de Março.

A história já a sabemos. Na sequência da guerra, o exército senatorial é derrotado e os seus principais chefes mortos. Do triunvirato formado (Octávio, Marco António, Lépido), depois do afastamento de Lépido, Octávio e António disputam o Império e, com a vitória de Octávio, morre definitivamente a República. Começa o principado, embora mantendo a ficção do estado republicano.

Bem podiam os republicanos pensar que o povo romano nunca mais aceitaria um rei, mas, nem uma geração depois, Roma tinha, mesmo que não usasse o nome, um governante quase absoluto. O curso da História nem sempre é linear.

Talvez por isso, tivessem razão os Antigos que tinham uma concepção circular do tempo, muito bem expresso pelo Eclesiastes (ou Qohélet):

Aquilo que foi é aquilo que será;
aquilo que foi feito, há-de voltar a fazer-se:
E nada há de novo debaixo do Sol!
Se de alguma coisa alguém diz:
«Eis aí algo de novo!»,
ela já existia nas eras que nos precederam.
Eclesiastes, 1, 9-10 (Nova Bíblia dos Capuchinhos)

Por isso, na Antiguidade o tempo era marcado pela ascensão e quedas dos impérios, havendo sempre a ideia de um eterno retorno. O cristianismo, ou num sentido mais largo, a herança judaico-cristã, vem instaurar uma linearidade na concepção do tempo, com a espera da vinda do Messias. Com a entrada da Idade Moderna, a concepção de tempo ganha, definitivamente, no Ocidente, as características de linearidade e progresso, entre outras, mesmo se secularizando a História da Salvação judeo-cristã.

Esta concepção linear talvez nos impeça há vezes de ver que as regressões no, digamos assim, progresso, da humanidade, são possíveis.

Deste modo, talvez seja útil olhar para História, para compreendermos mais facilmente de que não devemos dar por adquiridas as liberdades e democracia que temos actualmente. Ao contrário de que pensavam tanto os positivistas como marxistas, a história da Humanidade não é um marcha inexorável em relação ao progresso. A História ainda nos pode pregar muitas partidas.

segunda-feira, março 14, 2005

A Lei é para os dois lados...

Como toda a gente sabe, a França tem uma lei de separação da Igreja do Estado faz este ano, precisamente, 100 anos. Uma lei que atingiria em primeiro grau a Igreja Católica, mas que, por um lado, devido à resistência passiva (e por vezes activa) dos católicos, por uma implementação que embora dolorosa não foi demasiado rigorosa (a Igreja Católica está associada numa única associação cultual e não em milhares de associações cultuais correspondentes às antigas paróquias como queria a lei), acabou por beneficiar a Igreja por livrou-a dos encargos com a manutenção das igrejas e edifícios construídos antes de 1905, ao mesmo tempo que mantinha o usufruto de quase todos eles.

Fazendo aqui um pequeno parênteses, a nossa lei de separação da igreja e do estado de 1911, em muitos pontos decalcada da lei francesa, foi aplicada (ou tentou ser) com muito menos flexibilidade e, como seria de esperar, acabou por dar maus resultados. A oposição que os jacobinos republicanos fizeram à Igreja foi mais um dos muitos motivos que levou à queda da 1.ª República. E, um presidente como António José de Almeida, por exemplo, sentiu bem que isso era um problema e deu alguns cautelosos passos de aproximação à Igreja. Mas o mal estava feito. Fechemos os parênteses.

No entanto, em França, outras confissões, mesmos cristãs, estão associadas nas tais associações cultuais. Acontece, agora, que três igrejas evangélicas de Montreuil, apoiadas pela Fédération protestante de France e a Fédération évangélique de France, vão processar um autarca que terá invadido e arrancado uns cartazes nos locais de culto. Com base em quê? Na lei de 1905 que diz, no seu artigo 32.º, reprimir "ceux qui auront empêché, retardé ou interrompu les exercices d'un culte par des troubles ou désordres causés dans le local servant à ces exercices".

De facto há muita gente a reclamar pela separação da Igreja e do Estado e depois querem se meter na vida das igrejas.

domingo, março 13, 2005

Feminismo e ciência: incompatíveis?

Já por várias vezes pensei abordar aqui o caso de Larry Summers, presidente de Harvard, e dos problemas em que se meteu por ter considerado, com base em estudos científicos, que as diferenças entre os cérebros masculinos e femininos poderia justificar a disparidade de entre homens e mulheres em áreas como as ciências ou a matemática.

Foi quanto bastou para o feminismo radical, dentro da sua própria universidade, lhe caísse em cima e o obrigasse, lamentavelmente, a escrever uma carta de retractação.

Mas, se eu não tive tempo para escrever sobre o assunto, sempre posso recomendar esta excelente entrada n' O Insurgente.

De facto, parece que feminismo e ciência são incompatíveis.

Post scriptum. Para além deste caso, ler também este outro caso desta vez passado na Suécia. Deixem-me só transcrever o início desta entrada no Secular Blasphemy:

Columnist Carl Hamilton in Aftonbladet writes about a very troubling conflict between science and politics in Sweden. My translation:

The government bans opinions on men's and women's brains

In one respect Sweden's government is unique in the world. It has a definite opinion about a scientific controversy: whether women's and man's brains are different, or not. The first time i realised that the government had involved itself in neurobiology, was when gender equality minister [! - ed] Jens Orback in a speech about sexual deviations and living with horses [!!! - ed], affirmed:

- The government considers female and male as social constructions, that means gender patterns are created by upbringing, culture, economical conditions, power structures and political ideology.

Apart from taking a position on this scientific question, the government has deiced to side with the most extreme researchers: gene theoreticians who for ideological reasons state that biology can not have any saying in explaining why male and female behaviour differs.

Aconselho a leitura do resto.

sexta-feira, março 11, 2005

Porto, 0 - Nacional, 4

Já não me lembrava de ver o Porto perder por 4 em casa. A última vez de que me lembro disso, foi algures nos anos 70, em que o Porto foi derrotado por 0-4 pelo Belenenses no Estádio das Antas.

Agora, cerca de 30 anos depois, voltou a acontecer. Se há alguém culpado da situação, não é certamente o Couceiro, nem sequer os jogadores. É obviamente a administração da SAD, com Pinto da Costa à cabeça, que não soube gerir o pós-Mourinho e destruiu, alegremente, a equipa.

Enfim, e apesar de tudo ainda podemos vencer o Campeonato...

Post-scriptum. O resultado com o Belenenses foi na época 1974/75.

A islamização da escola republicana em França

Para não estar a escrever as mesmas coisas duas vezes seguidas, ler a minha entrada com o título acima n' O Insurgente.

quinta-feira, março 10, 2005

Organizem-se

Ao que parece o ex e futuro primeiro-ministro do Líbano vai voltar a formar governo. Mas não é da situação libanesa que eu quero falar. É de uma coisa que por vezes irrita. Se já estiveram atentos, o nome do senhor tanto aparece escrito Karami como Karame. Porquê?

A explicação é simples. Se a fonte da notícia portuguesa veio em língua inglesa, então é Karami. Se veio em francês, então é Karame (os franceses até escrevem Karamé). Não há ninguém em Portugal, nos media, que conheça arabistas que possam fazerm a transcrição correcta para português?

Senão continuamos a ver também coisas como Al-Jazeera ou Al-Jazira e muitos outras coisas. Caramba, até parece que no séc. XV havia mais gente a saber árabe em Portugal do que agora.

quarta-feira, março 09, 2005

A ler...

André Glucksmann sobre o assassinato de Maskhadov na Chechénia por parte dos russos.

Cadeados e não só!

Parece que os alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa fecharam-na a cadeado até que sejam atendidas as pretensões inscritas no caderno reivindicativo.

Sinceramente não sei o que eles estão a reinvindicar, pois nas televisões o que vi foi um estudante a protestar contra a impossibilidade dos alunos repetentes assistirem às aulas práticas (assunto em que não posso dar a minha opinião) e ainda contra a redução do calendário de exames de 1 mês para quinze dias, fazendo com que, entre alguns exames, haja apenas 48 horas de intervalo.

Não conheço as dificuldades do curso de Direito, nem as práticas avaliativas que lá se fazem, mas, assim para quem está no exterior, 48 horas de intervalo entre exames não parece nada mal. Já não me lembro quantos dias de intervalos tinha para as minhas frequências na FLUP, mas, lembro-me, perfeitamente que, cheguei a fazer duas frequências no mesmo dia e sem possibilidade de reclamar, pois como pertenciam a anos diferentes não tinham que respeitar intervalos mínimos entre frequências.

Mesmo nessa altura havia colegas que se queixavam que as frequências estavam próximas em demasia. É claro que para quem não estuda durante o ano e tenta empinar tudo na época de frequências, mesmo em Letras (há muita gente que pensa que é mais fácil), a vida, nesta época, fica difícil. Em Direito uma atitude também não deve ajudar. E como eu tenho filhos de amigos meus a andarem em Direito (mais concretamente na Católica do Porto) que tiveram, neste 1.º ano, uma atitude desta, não me admirou nada o olhar esgazeado com que andaram em Janeiro.

É claro que há muita coisa errada na avaliação universitária, inclusive com épocas de avaliação demasiado longas e repetidas (de um modo geral). Mas apresentar o caso de 48 horas de intervalo entre exames como um dos casos principais, parece exagero. Na vida profissional vão ter que fazer mais em muito menos tempo.

Na minha actividade, nas faculdades quando se fala de traduzir, fala-se em projecto de tradução, reflecte-se sobre o processo de tradução, etc., etc., etc., isto é, parece um trabalho reflectido em que há tempo para fazer escolhas (linguísticas e não-linguísticas), que se pode desenvolver com calma, com clientes que compreendem bem o que é o trabalho de tradução.

Nada mais errado. Muitos clientes pensam que traduzir é pouco mais do que uma transcodificação, isto é, o que é dito numa língua tem equivalentes totais noutra língua. Não se apercebem dos aspectos extra-linguísticos como, por exemplo, o facto de se fazer uma tradução jurídica de português para francês chocar com códigos jurídicos que não são idênticos., com procedimentos que não têm paralelo, etc. Por outro lado, trabalha-se frequentemente a todo o vapor, com prazos de entrega absolutamente louco. Apesar disso, o cliente exige a mesma qualidade, não lhes importando se o tradutor teve muito ou pouco tempo para fazer a tradução.

Tudo isto não se aprende nos bancos da faculdade. Tem que se aprender a lidar com a pressão, mas os nossos alunos, mesmo na faculdade, nem sempre estão habilitados a lidar com ela.

terça-feira, março 08, 2005

Desenvolvimentos no Kosovo

Aos poucos o TPI para a ex-Jugoslávia está a chegar a outros possíveis criminosos de guerra que não apenas sérvios ou, em menor grau, croatas. Há pouco tempo foi um general bósnio muçulmano, agora é o primeiro-ministro do Kosovo, pelo que fez enquanto líder do UÇK.

Realmente é preciso ver o que se passou, pois se a NATO interveio para acabar com uma limpeza étnica, que se veio depois a provar sobre-inflancionada, o que se passou depois de 1999, foi uma verdadeira limpeza étnica feita pelos muçulmanos contra todas as outras minorias, sérvios à cabeça.

É que, neste caso, os conflito não era entre sérvios-maus e kosovares albaneses-bons, como agora muita gente vai começando a ver. Por outro lado, a intervenção da NATO nada resolveu e a situação eterniza-se.

Mas, para muita gente que pensa que a única intervenção sem aval da ONU má foi a invasão do Iraque. Será que a diferença está entre uma ser feita pelo Clinton e a outra pelo Bush? Claro que não, mas parece.

Post scriptum. O modo como esta notícia sobre o primeiro-ministro do Kosovo foi dada nas televisões que vi (CNN e SIC-N) é, no mínimo, risível e mal-informada. Ao falar do motivo pelo qual ele era um herói para os kosovares albaneses, ambas referiram o facto de ele ter comando a guerrilha do UÇK contra os ocupantes sérvios. Ocupantes sérvios? Desde quando. O Kosovo é o berço da Sérvia. O facto dos sérvios serem minoritários no Kosovo têm que ver com acidentes da história e não com qualquer ocupação. Se, naquela terra, alguém foi ocupante esse alguém foi o Império Otomano.

Resistência?

Que raio de resistência é esta que assassina o povo que diz querer libertar?

segunda-feira, março 07, 2005

O mito da Islamofobia

Através do sítio Observatoire du Communautarisme, cheguei a este artigo de Kenan Malik (esta ligação leva ao próprio sítio de Malik em que o ensaio tem uma versão mais longa do que aquela publicada na revista Prospect).

Cito o resumo do artigo da Prospect:

If there is a backlash against British Muslims, where is the evidence for it? Scaremongering about Islamophobia promotes a Muslim victim culture and allows some community leaders to inflame a sense of injury while suppressing internal debate. The new religious hatred law will make matters worse

Já aqui referi por várias vezes que os líderes comunitaristas no Ocidente utilizam conceitos como racismo, discriminação, etc., para manterem o poder sobre as comunidades que supostamente representam, ao mesmo tempo que suprimem o debate interno.

De qualquer forma o artigo é bem interessante e merece ser lido.

sexta-feira, março 04, 2005

Novo governo

Já temos governo e 6 em 16 dos novos ministros são reciclados do guterrismo. Não que isso só por si queira dizer alguma coisa, mas, por exemplo, Alberto Costa no MAI foi um erro de casting de Guterres. Será que na Justiça será melhor?

Por outro lado, Freitas do Amaral nos Negócios Estrangeiros não é muito espantoso. Alguém cobrou algo a alguém e o resultado aqui está. Não há muito mais a comentar.

Na Cultura, está uma pessoa que foi minha professora na Faculdade de Letras, Isabel Pires de Lima. Não me posso queixar da nota que me deu, embora abaixo da minha média de fim de curso (também não me esforcei demasiado, o séc. XIX não é o meu preferido). De Literatura ela percebe, como ministra não sei... veremos como se sai.

De resto, o governo não me aquece nem arrefece, esperemos.

Post scriptum. O facto de Vitorino não fazer parte do governo, nem sequer é surpresa. Penso que já toda a gente esperava isso.

Taça de Portugal

Pelo que vi ontem, a Taça de Portugal já tem dono, o Benfica está a ser levado convenientemente ao colo (vejam lá, nada de interpretações maldosas).

Enfim, anda aí muita gente com saudades do Portugal de antanho.

quinta-feira, março 03, 2005

Um olhar exterior

Num interessante artigo sobre a questão de Bolonha, num dos comentários, o Carlos mencionou e deu o endereço para a comunicação de um professor visitante norte-americano do IST, que depois de alguns anos de ensino em Portugal, fez esta comunicação em que se propôs apresentar:

(...) certain controversial ideas and suggestions whose purpose is to help strengthen the ability of Portuguese universities to carry out firs-rate research in the engineering and technology international arena, and to increase the visibility of Portuguese researchers and their institutions among their international peers.

Não estou de acordo com muito do que ele diz, mas certo é que ele toca em alguns pontos fundamentais que tornam as universidades portugueses extremamente estáticas, para além de prolongar, no tempo, os seus principais defeitos (por exemplo, a composição do corpo docente).

Também de notar que este professor não caustica demasiado os alunos, vendo-os antes como vítimas do próprio sistema de ensino, pois, ainda segundo o autor, à entrada da universidade não são inferiores ao do MIT.

Quanto à investigação, e apesar de star numa faculdade de letras, lembro-me de quando estava a discutir como o meu orientador de mestrado alguma da bibliografia, ele ter comentado, a propósito de uma autora, de que ela é que tinha sorte por ter tempo para investigar, ao contrário dele, além das aulas, tinha diversas tarefas burocráticas e administrativas.

Mas se ele se preocupar ainda em arranjar tempo para investigar, havia outros que não apresentavam nada de novo há anos ou então, dedicavam-se há anos a fazer variações à tese de doutoramento, não saindo praticamente do sítio.

Concordando-se ou não com o que é dito por Michael Athans, vale bem a pena a leitura até por alguns dos problemas que levanta. É claro que algumas das sugestões que dá se fossem aplicadas tinhamos uma revolta no Ensino Superior.

quarta-feira, março 02, 2005

Pergunta indiscreta

O Sócrates anda a formar governo no silêncio dos gabinetes ou será que não tem ninguém que aceite os convites (para além daqueles que estão dispostos a aceitar, mas que ninguém os quer)?

É que não adianta andar a dizer que com a Constituição é tudo muito demorado, para depois passada semana e meia das eleições ainda não haver governo. Lembram-se da pressa com que os jornalistas queriam que Santana Lopes formasse governo?

Cá para mim o Sócrates parece-me que desapareceu em (pós-)combate.

terça-feira, março 01, 2005

Dieudonné e a liberdade de expressão

A Ana interroga-se neste artigo: "Deve dar-se a palavra a Dieudonné?".

Para aqueles que não conhecem bem a questão de que a Ana fala, posso-lhes dizer que ela ganhou visibilidade com um sketch de muito gosto protagonizado por Dieudonné num programa de Marc-Olivier Fogiel chamado One ne peut pas plaire a tout le monde, na France 3, a 1 de Dezembro de 2003 (salvo erro), onde disse, por exemplo, entre outras coisas, o seguinte: J'encourage les jeunes gens qui nous regardent aujourd'hui dans les cités, pour leur dire: convertissez-vous comme moi, essayez de vous ressaisir, rejoignez l'axe du bien, l'axe américano-sioniste. Isto vestido de rabino e onde fez também uma saudação hitleriana de braço e gritando: Israel.

Depois desse programa, Dieudonné entrou em plena derrapagem racional que o levou a proferir algumas declarações perfeitamente idiotas em Argel em Fevereiro deste ano. Um resumo desta caso pode ser encontrado aqui.

Pergunta a Ana se se deve defender a liberdade de expressão. Eu acho que sim, mas não a tudo o custo, pois não há, em democracia, direitos absolutos. Aliás seria um paradoxo num sistema que nasceu para limitar o poder absoluto, permitir a existência de direitos absolutos. Não advogo de modo algum a censura, mas havendo infracções cometidas no uso deste direito é lógico que essas infracção devem ficar sob a alçada da lei.

Mas, mais eficaz, neste caso, será a denúncia permanente do anti-semitismo deste senhor. A amálgama que ele faz entre as lutas do negros e as declaraçõe anti-semitas que profere são do mais ignóbil. Se ele fosse censurado não se haveria ele de converter num mártir?

Talvez seja preferível, neste caso, assentar baterias sobre o carácter inaceitável das suas declarações (embora eu saiba que em França as opiniões anti-semitas estão a crescer de popularidade e por isso o combate pode ser difícil) do que sobre a discussão da liberdade de expressão. E, no caso de ele ter infringido alguma lei francesa sobre o abuso de liberdade de expressão, processá-lo nos termos da lei.

Mas os tempos estão duros para os judeus franceses...

Parabéns

O Blasfémias faz um ano. Nem preciso dizer que se trata de um dos meus blogues preferidos, penso eu.

Por isso, só espero que continuem a travar este bom combate.