segunda-feira, março 21, 2005

Ode da Primavera

Foram-se as neves e aos campos já a relva regressa
e às árvores a folhagem;
a terra muda a sua face, e, deixando as margens,
os rios decrescem.

Uma Graça mais as duas irmãs, nuas, ousam dançar
com as Ninfas.
Não esperes pela imortalidade, adverte-te o ano e a hora
que arrebata o dia criador.

Ao sopro dos Zéfiros, abranda o frio; à Primavera sucede
o Verão parecedouro, e logo
o copioso Outono espalhará seus frutos; de seguida
a bruma inerte regressa.

Porém o suceder das Luas depressa repara os danos vindos do céu.
Mas nós, logo que tombamos
no lugar onde está o piedoso Eneias, o opulento Tulo e Anco,
mais não somos do que pó e sombra.

Quem sabe se à soma dos dias de hoje
juntarão os deuses supernos as horas de amanhã?
Das mãos ávidas do teu herdeiro se escaparão todos os bens
com que o teu ânimo regalaste.

Uma vez morto e ao magnífico julgamento
de Minos submetido,
nem linguagem, nem eloquência, nem piedade,
te farão viver.

Das infernais trevas, nem Diana liberta
Hipólito casto,
nem Teseu das cadeias do Letes consegue soltar
o caro Pirítoo.

Horácio, Odes IV.7 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira)