terça-feira, outubro 17, 2006

Mudança de instalações (novamente)

Por variados motivos decidi mudar de novo o Super Flumina que passará a estar agora em:

http://superflumina.blogs.sapo.pt

Volto assim ao Sapo, esperando que desta vez ele cumpra as promessas de melhor serviço.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Novas religiões, novas inquisições

O João Miranda escreveu hoje, como de costume de modo incisivo, sobre a religião ambientalista, elecando algumas das características desta nova religião. O ponto número 4 reza assim:
Os ambientalistas, tal como os os fanáticos religiosos, reagem irracionalmente às heresias.
E como reagem irracionalmente a quaisquer heresias, querem-nas castigar. Assim, um tal David Roberts não hesita em propor uma espécie de tribunal de Nuremberga para todos aqueles que que pertençam à "denial industry", só que aqui os negacionistas não são aqueles que negam o holocausto, mas todos aqueles que, por um ou outro motivo, são cépticos quanto à esta questão do "aquecimento global", sobretudo, no que diz respeito às suas origens antropogénicas.

Toda esta linguagem de equiparar o aquecimento global ao Holocausto e a tentativa de associar o negacionismo do Holocausto ao cepticismo sobre o aquecimento global, chamando negacionistas a estes últimos, não passa de uma tentativa torpe, totalitária e politicamente corrente (tautologia: o politicamente correcto é totalistarista por definição) de encerrar o debate, escudando-se num inexistente consenso científico e demonizando o adversário (velha táctica por demais empregue).

Daqui a pouco ser céptico sobre o aquecimento global será quase considerado como crime contra a humanidade. A este propósito, ler também Global warming: the chilling effect of free speech de Brendan O'Neill.

É certo que as ameaças à liberdade de expressão se multiplicam, mesmo em países democráticos como a França (cf. Génocide arménien: la décision française mal accueillie en Turquie; não tenho dúvidas que o genocídio dos arménios aconteceu, mas uma lei a penalizar quem expresse dúvidas sobre ele é qualquer muito estúpida), mas é preciso não nos intimidarmos perante estes exemplos, sob pena da liberdade de expressão ser coisa do passado, passando a existir, apenas, a verdade oficial.

De qualquer modo, pelos exemplos vistos, parece não haver dúvidas que para alguns o ambientalismo está a tornar-se numa verdadeira religião, com dogmas de fé e tudo, em que os hereges têm que ser condenados pela sua dissêndia em relação à verdade oficial.

Belos tempos progressistas, sem dúvida.

domingo, outubro 08, 2006

Jornalismo copy+paste (ou copiar + colar)

Ontem dei conta aqui de um texto de Jorge Silva Melo em que ele se demonstrando insatisfeito com a qualidade das traduções no teatro, fala também de uma crítica "estilo copy + paste".

Que os jornais hoje em dia dependem muito das agências noticiosas e que, por vezes, se limitam, a traduzir as notícias já toda a gente sabe. Por vezes, também, fazem-no mal e até se consegue ver de que língua é que a notícia foi traduzida. Outras vezes, mesmo em português, nem sequer conseguem aportuguesar a notícia.

Foi o que se passou hoje com uma notícia no JN sobre o Rocco Siffredi (sabem quem é, não?). O jornalista pegou numa notícia da Agência Efe escrita em português do Brasil (que pode ser lida aqui) e inseriu-a no jornal, tentando, apenas, aportuguesá-la. Mas, seja lá por que motivos foi, a coisa não saiu lá muito bem.

Desde frases como «passa pelos "primeiros prazeres solitários no banheiro"» (sabem o que quer dizer banheiro, neste contexto, em português de Portugal?), a flutuações ortográficas na mesma frase "actor/ator" ou a frases com construção típica português do Brasil: «Siffredi decidiu que era a hora de "que lhe pagassem por seus serviços"» (para além da estranhíssima, neste contexto, expressão "era a hora de que" - seria melhor uma formulação "estava na hora de lhe pagarem" -, "por seus serviços" omite o artigo definido na forma plural que é típico do português europeu, tornando a frase um pouco estranha ao nosso ouvido; "pelos seus serviços" seria mais usual.

Por fim, é mesmo a última plavra do texto, fala em "roteiristas", que em Portugal se chamam "guionistas".

Obviamente que, com este texto, não estou a insinuar que os brasileiros escrevem mal português e que nós é que somos bons. Os brasileiros têm uma norma e nós temos outra, é tão simples como isso. Se os jornais querem transcrever as notícias que recebem das agências, tudo bem. O que é preciso é que o façam em bom português e não em versões híbridas, mesmo em notícias como esta que não têm especial relevância.

sábado, outubro 07, 2006

"Encore bien que je te trouve"

Estava eu a ler a coluna do Jorge Silva Melo, no Mil Folhas de ontem, com o título acima, em que ele vai discorrendo sobre a tradução que por aí se pratica no teatro, quando a certa altura, ele escreve: "Na tradução, diz-se, há-de ouvir-se a língua de origem". Ia eu já rever todos os meus conceitos sobre tradução (a presença ou não da língua de origem na tradução é coisa responsável pelo abate de muitas árvores), o estatuto do texto original e essas coisas mais, mas com a leitura do texto até ao fim, pensei, para comigo, (não sabendo se essa era ou não a intenção original do autor, mas isso também não me interessa, pois como diz Pessoa, "E os que lêem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm."), que afinal, nos exemplos dados por JSM, ironicamente, a língua original não se ouvia apenas, estava era aos gritos. Escreve JSM:
Na tradução, diz-se, há-de ouvir-se a língua de origem. E é inegavelmente bonita a maneira como o inglês de Shakespeare vai desfilando paralelo ao português de Sophia. Mar porquê pôr as personagens a falar inglês com palavras semiportuguesas naquela maneira "encore bien que je te trouve" ("ainda bem que te encontro") de que nos ríamos, alameda da Universidade abaixo? É nessa língua (o "portinglês") que ouço agora teatro. De palco em palco, as traduções parecem ser feitas, por computador, sem língua que as sustente, palavra a palavra, como se isso fosse fala. (...)

Num [jornal], a propósito de um actor italiano, diz-se que "recita de memória" ("recitare a memoria" = "dizer de cor"); noutro, fala-se de "jóia" que o encenador via no texto (singular tradução de "gioia", "joie", "joy". Em português, ficou "júbilo", mas, trazido de outras terras, dizemos "alegria"). (...)

Uma jornalista escreve que "se morre de pé. como as aves" (terá ouvido mal a gravação, aceite-se; mas onde terá visto, nem que fosse um flamingo, morrer de pé? É que a frase termina com "árvores", no original de Casona que Palmyra celebrizou com o seu trémolo);
Por outro lado, JSM critica a "crítica", quando encontra:
... o último número do "Mouvement", quando não o "press-release" alinhavado pela produção para o "Festival d'Automne" e reproduzido toscamente. Será por isso que a "crítica" (?) parece preferir debruçar-se sobre espectáculos, exposições, filmes, "eventos" já criticados naquele imenso "lá fora", para repetir o que já foi escrito, estilo "copy+paste"?
De facto, não são só os estudantes que vão à net fazer cópias para os seus trabalhos académicos. Pensar pela própria cabeça, implica esforço e é sempre mais fácil escrever quando se encontra a "papinha feita".

Nunca houve tranta gente licenciada especificamente em tradução. Aliás, em Portugal, nunca houve tanta gente licenciada. Como se explica todos os problemas que, frequentemente, vemos levantados nesta questão das traduções? Será que as traduções do passado era todas excelentes. Certamente que não. Mas, se o grau de qualificação actual é superior, temos que esperar mais e melhor.

Também é certo que, exemplos isolados, como os apresentados por JSM, retirados daqui e dali, por si só não servem para fazer a avaliação global de uma tradução, mas, pela sua natureza, abalam fortemente a sua credibilidade e o grau de confiança do leitor/espectador em relação ao todo.

quinta-feira, outubro 05, 2006

República

Está quase no fim este quinto dia de Outubro. para mim, republicano assumido, a comemoração do 5 de Outubro deixa-me relativamente indiferente pois, para mim, a 1.ª República que se comemora pode ser tudo menos um exemplo a seguir, pois nem sequer democrática era.

Uma das minhas objecções quanto à monarquia deve-se ao facto desta, que na maioria dos casos são sucessórias, violar aquilo a que os antigos gregos chamavam "isocracia", isto é, a "igualdade de poder ou de acesso aos cargos". Em Atenas a maioria dos cargos públicos eram ocupados por pessoas cuja a escolha tinha sido pelo processo de "tiragen à sorte" e isto era uma característica tão importante que Heródoto faz menção dela no passo 3.80-83 em que três nobre persas discutem a melhor forma de governo. Mesmo que esta tiragem à sorte não fosse aplicada, por exemplo, ao cargo de estratego, devido à sua especificidade, a escolha deste fazia-se por eleição.

Para mim é absolutamente impensável que alguém, por virtude apenas e só do seu nascimento, tenha direito à chefia de estado, mesmo que de uma forma quase decorativa. Não quer dizer que não pudesse viver numa monarquia constitucional, mas, sinceramente, prefiro a república.

No entanto, não sei se subscreveria o que diz Alexandre Andrade:
A monarquia é uma espécie em vias de extinção, que sobrevive em nichos dispersos procurando adiar o descalabro.
Também Cícero dizia (A República II.30.52):
Passados então esse duzentas e quarente anos de realeza (ou um pouco mais, com os interregnos), e depois da expulsão de Tarquínio, foi tal o ódio que o povo romano tomou ao título de rei, quanto a saudade que sentira depois da morte, ou melhor, da partida de Rómulo. De tal modo que, tal como então não poderia estar privado de um rei, agora, após a expulsão de Tarquínio, não podia ouvir o nome de rei.
Sabe-se o que seguiu, embora Augusto tenha tido o cuidado de manter a fachada das instituições republicanas. Não sei se daqui a duzentos anos a forma monárquica não estará em alta, quando agora está em baixa. Não tenho ideia de que a história seja uma linha recta de contínuo progresso.

Na Antiguidade havia uma concepção circular do tempo bem expressa nos versículos 9-10 do Eclesiastes (ou Qohélet):
Aquilo que foi é aquilo que será;
aquilo que foi feito, há-de voltar a fazer-se:
E nada há de novo debaixo do Sol!
Se de alguma coisa alguém diz:
«Eis aí algo de novo!»,
ela já existia nas eras que nos precederam.
Embora eu não acredite nesta sensação de eterno retorno, marcado pela ascensão e quedas de Impérios, não posso, de modo algum, pensar no tempo em termos de linearidade absoluta, numa marcha inexorável em direcção ao progresso. É uma visão demasiado optimista da humanidade que não posso partilhar.

De qualquer modo, a minha preferência pela república é, está claro, no campo dos princípios, pois o facto de um país ser uma república não o torna, per si, melhor de que um país com um regime monárquico. Os exemplos são tantos neste mundo que até será fastidioso enumerá-los.

Quanto à 1.ª República, estou de acordo com o que diz Rui Ramos em "O dia dos equívocos" (Outra Opinião - Ensaios de História):
A República que hoje existe em Portugal pouco tem que ver - felizmente - com aquela que foi implantada a 5 de Outubro de 1910 e durou até 1926, a chamada I República. Porque é que uma democracia pluraista insiste em fazer feriado em memória de um regime que, pelos padrões do princípio do século XXI, não foi democrático nem pluralista?"
De facto, pouco há a comemorar na 1.ª República... de qualquer modo:

Viva a república!

quarta-feira, outubro 04, 2006

Dégueulasse...

... é o mínimo que se pode dizer deste artigo no The Independent.

Segundo o articulista o Ocidente está ser silenciado pelo Islão mas, no fim de contas, isso até não é tão mal como isso!
But in many places there is a growing realisation that freedom of expression is not absolute but needs to be governed by a sense of social responsibility. To elevate one right above all others is the hallmark of the single-issue fanatic. Sometimes it is wise to choose not to exercise a right.
Sim, o respeitinho é muito lindo, mas só em relação a alguns (afinal ninguém pediu sensibilidade quando um "artista" pôs um crucifixo dentro de um frasco de urina)... Pode dizer-se que nenhum direito é absoluto, mas o que quer ele dizer que esse direito tem que ser "governed by a sense of social responsability"? Para mim, neste caso, não é mais do que a censura comunitária, isto é, impedir o indivíduo de exercer um direito em nome de um "bem público" abstracto e totalitário. Mais um a apelar à moderação. Além de que o conceito de "responsabilidade social" tem muito que se lhe diga...

De qualquer modo, o autor também não entende sequer o conceito de "infalibilidade papal", senão não diria disparates como este:
Such corrections were damaging to the Pope's image among Catholics of infallibility.
Néscio. Se ele lesse, por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica poderia ler:
891. «Desta infalibilidade goza o pontífice, chefe do Colégio episcopal, pelo lugar próprio que ocupa, quando na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis, e encarregado de confirmar na fé os seus irmãos, proclama, por um acto definitivo, um ponto de doutrina respeitante à fé ou aos costumes. (...)».
O Papa não tem qualquer infalibilidade em matéria política, por exemplo, e mesmo em matéria de fé e costumes, só quando faz declarações ex-cathedra, o que não foi manifestamente o caso da Universidade de Ratisbona.

Mas enfim, será que a "new sensivity" não terá, tão somente, o nome de "medo"?

Ainda as praxes...

Sobre a praxe já há algum tempo escrevi a minha opinião. É claro que não a modifiquei em nada. A praxe, da forma como é habitualmente praticada, é algo de completamente estúpido, sem sentido e geralmente degradante. Mas mesmo que a sua prática fosse diferente, isto é, mais civilizada, continuo a pensar que, ainda assim, é completamente injustificada. Há muitas maneiras de integrar as pessoas em novas realidades e nenhuma delas, para mim, passa por actividades praxistas. Há sempre uma mentalidade de pequeno ditadorzeco, de totalitarismo de trazer por casa, nas praxes.

Por isso, fico contente por um caso de praxe chegar a tribunal. Não que eu queira que os praxistas vão todos para a prisão, quero é que as pessoas compreendam que há limites e há coisas que, numa sociedade dita civilizada, não se fazem e nem lhes deveria sequer passar pela cabeça fazê-las.

Espero é que os "caloiros" tenham cada vez mais coragem de se recusarem a ser conduzidos como carneiros e recusem estas práticas que, mais do que medievais, são sintomas de totalitarismos latentes.

Primeiras fissuras...

Silvio Berlusconi pode ter muitos defeitos, mas foi o primeiro primeiro-ministro italiano do pós-guerra a cumprir o mandato. Apesar disso, e muito por culpa própria, os italianos não o reelegeram. É certo que, e na minha opinião, não terão ganho muito com isso, Romano Prodi está longe de ser um político que entusiasme os seus partidários e a coligação, a União, que apoia o seu governo é uma espécie de albergue espanhol onde cabe um pouco de tudo, desde democratas-cristãos a comunistas.

Por isso, mais tarde ou mais cedo teriam que começar as desavenças. No Senado a coligação governamental perdeu uma votação porque um dos partidos que a compõe, Itália dos Valores, liderada pelo juiz Antonio di Pietro, célebre pela operação Mãos Limpas e, mais espantoso ainda, ministro das infra-estruturas, absteve-se na votação de um artigo de um decreto de lei (abstenção conta como voto contra no senado italiano).

Quem não gostou nada da piada foi Clemente Mastella, ministro da justiça, líder da UDEUR (centristas/democratas-cristãos), que considerou que a acção de di Pietro põe a maioria em perigo. Mastella chega mesmo a citar Cícero, na I Catilinária, "usque tandem Catilina abutere patientia nostra" (até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência). Catilina foi considerado pelo senado romano como traidor de Roma por conspiração e morto em combate. Di Pietro, verdadeiro enfant terrible do governo Prodi, tem agora sobre si a desconfiança de parte dos seus companheiros de governo e está em riscos de ser também considerado um traidor...

Parece que, com Prodi, a Itália se arrisca a regressar à tradição do pós-guerra de governos com duração média um pouco superior a um ano. Não é verdadeiramente um bom augúrio.

Quo Vadis Italia?

domingo, outubro 01, 2006

São Jerónimo

Há já bastante tempo que não publicava nada no Humanae Litterae, mas ontem, 30 de Setembro, por ser o dia de São jerónimo, sendo ele considerado o padroeiro dos tradutores, decidi dedicar-lhe um texto, que não saiu assim tão pequeno como isso.