sexta-feira, dezembro 31, 2004

Passagem de ano

Para todos os que me visitam e me lêem , quero desejar um

FELIZ ANO NOVO 2005

Pela minha parte, não declarando férias, apenos digo que o mais provável apenas voltar a escrever no blog em 3 de Janeiro do 2005. Mas nunca se sabe...

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Ainda o maremoto

Com o muito trabalho que tenho, não pude esta semana dedicar-me muito ao blog (já se estar a tornar recorrente nos últimos tempos), mas ainda assim tenho acompanhado a situação na Ásia.

Se há coisa que me impressiona é esta mania dos portugueses acusarem logo que a embaixada não fez nada. Duvido que, humanamente, a embaixada em Banguecoque pudesse ter feito mais do que fez no meio daquela confusão. É claro que as pessoas que foram afectadas não têm (nem podem ter) a mesma percepção, pois a situaçãoem que se encontram é muito complicada.

De qualquer modo, acho que as críticas talvez sejam injustas.

Agora, a posição do embaixador é que é outra coisa. Este senhor deveria ter ido de imediato para a zona. Talvez não fosse fazer muito mais, mas era um sinal de solidariedade que dava a quem estava a sofrer. O tempo que demorou a partir foi manifestamente excessivo. Aqui, sim, penso que ele deveria ter, por iniciativa própria, agido de outra forma.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Idiotices

Verdadeiramente exemplar do ódio dos fundamentalistas laicos ao cristianismo, é o caso de Zapatero que consegui fazer uma mensagem de Natal sem mencionar uma vez a palavra "Navidad". Não estaria Zapatero com esta acção a desrespeitar e a ofender uma parte significativa da população espanhola? É que se Zapatero não celebra o Natal, se acha que isso não faz sentido, ele só tem uma coisa a fazer: abolir as celebrações do Natal em Espanha. Só assim será coerente.

A Espanha continua no bom caminho, sem dúvida!

terça-feira, dezembro 28, 2004

Tratado de "Lateran"?

Já disse várias vezes que no que toca a tradução e legendagem de programas televisivos não sou demasiado duro para com alguns do erros que por vezes se descobrem nos ditos programas. E porquê? Porque sei em que condições frequentemente estes trabalhos são feitos. E, se eu me queixo pelos prazos loucos que tenho, por vezes, para fazer traduções, sei que no mundo da televisão os prazos são extremamente curtos para um trabalho tão específico como é o da legendagem. Por isso, tendo a compreender a dificuldade da tarefa.

No entanto, há erros e erros, e se uma boa tradução ou legendagem não pode ser avaliada pelo apontar erros pontuais, há pormenores que podem deitar a reputação do trabalho abaixo, não propriamente por uma questão de tradução errada mas, por exemplo, por demonstrar uma falha na cultura do tradutor.

É que na tradução (agora tomada aqui em latu sensu, isto é, englobando interpretação e legendagem) é muito mais do que passar um texto (também não desenvolverei aqui o conceito de texto que, nesta acepção, não se limita a objectos escritos) de uma língua para outra. Por outro lado, não basta saber línguas (pelo menos a de partida e a de chegada) para se ser bom tradutor. É que o tradutor é um intermediário entre duas culturas e por muito próximas que elas sejam, têm sempre particularidades que as fazem distinguir. Por outro lado, para se fazer uma boa tradução, o tradutor tem que fazer pesquisa e investigar e, aqui entra o problema dos prazos curtos (e da ignorância de quem frequentemente encomenda as traduções, pois pensam que traduzir é apenas uma transliteração), que impedem que esta pesquisa se faça em condições aceitáveis, advindo daí alguns dos erros que por vezes se observam.

Todavia, aquilo que observei hoje no Canal História num programa chamado "Os esbirros de Mussolini" é um erro que releva mais de uma deformação deficiente, não só universitária, mas muito principalmente pré-universitária.

É que a dada altura, fala-se do "Tratado de Lateran" em vez do Tratado de Latrão. Este tratado que pôs fim à contenda que desde o fim dos Estados Papais em 1871 opunha o então Reino de Itália e a Santa Sé e foi assinado em 11 de Fevereiro de 1929, no palácio de Latrão. Só que, que quem fez a versão portuguesa, por ignorância ou descuido, manteve a palavra inglesa "Lateran", não se lembrando sequer que, provavelmente, haveria um nome português para a dita palavra. Isto acontece, com a maior das probabilidades, por deficiência cultural do tradutor.

E se digo isto é porque já não é a primeira, nem segunda, nem terceira vez que noto que nomes próprios, topónimos, etc. não são traduzimos mesmo havendo já palavras portuguesas para essas palavras, algumas já lexicalizadas em português há centenas de anos.

São pormenores como este que podem arruinar uma tradução, pois revelam deficiências culturais que provavelmente se manifestarão noutros pontos da tradução e que nenhum domínio de língua, por melhor que seja, pode esconder.

Como diz Hans Vermeer no seu Esboço de uma teoria da tradução (ASA, 1986), "é indispensável inteirar-se bem e detalhadamente sobre todo o assunto que apareça numa tradução. Sem saber, não há tradução". (destaque do autor)

Por vezes a brevidade dos prazos impede a realização desta tarefa, mas o tradutor tem também obrigação de manter e actualizar uma cultura geral que resolverá muito destes problemas que vão surgindo. E, neste caso particular, trata-se de um problema de cultura geral.

A tradução é uma tarefa mais complexa e exigente do que a maioria das pessoas pensa e passa, também, por pormenores como este.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Vantagens da religião

O CAA tem-se esmerado nos últimos meses numa encarniçada luta contra a religião, e a Igreja Católica em particular. Ainda ontem colocou mais um artigo que obviamente gerou uma enorme catadupa de comentários. Devo dizer que nas primeiras discussões ainda participei, mas que agora desisti porque, de facto, lá não se aprende nada.

Eu sou católico, em parte por tradição familiar e, na sua maior parte, por escolha própria. E, digo por escolha própria, porque tive a oportunidade de ler muito sobre o assunto, sobre as várias religiões, sobre o ateísmo e agnosticismo, e cheguei a conclusão que continua a fazer sentido a ideia de Deus.

Não pretendo aqui explicar como e porquê cheguei a esta conclusão, apenas quero dizer que o ser crente pode ser uma escolha perfeitamente racional, isto é, usando a faculdade de raciocínio, própria da espécie humana. Pensar que as pessoas são religiosas por serem ignorantes ou por crendice é má-fé.

Todavia, afastei-me um pouco do objectivo desta entrada, que era apenas de dar conhecimento deste pequeno estudo que afirma que as pessoas que crêem (numa qualquer religião) são menos susceptíveis de se suicidarem.

Afinal, parece que ter uma religião sempre tem vantagens...

Intendência

Bom, em primeiro lugar, já regressei do fim-de-semana, que isto de nos afastarmo-nos do blog por outros motivos que não sejam apenas os de trabalho também é bom (pelo menos de vez em quando).

Por outro lado, agradeço, obviamente, a referência que me foi feita tanto pelo Nuno, como pelo André ao classificarem este meu blog entre os seus preferidos.

Não seria preciso dizê-lo, pois eles sabem-no, que também eles são bastante apreciados por estas paragens.

Em segundo lugar, não posso deixar de registar, com natural horror, a catástrofe ocorrida no sudeste asiático, cujas as reais proporções ainda estarmos por perceber completamente. O sentimento de impotência perante tantas milhares de mortes, tenderá sempre a chocar, embora, no caso das catástrofes naturais, ao contrário das provocadas pelo homem, todo este choque e horror tende a ser esquecido com bastante rapidez. Provavelmente, no final desta semana já não se falará muito do assunto.

Por fim, na política nacional, não se passa nada de novo. Foram todos de férias de Natal. É certo que se soube que Menezes seria cabeça de lista do PSD por Braga. Mas, numa democracia representativa como a nossa, em que os deputados, mesmo que sejam naturais ou residentes dos círculos pelos quais se candidatam, não se sentem muito ligados aos círculos que os elegem, esta questão dos cabeças de lista é um pouco de somenos importância. Todavia, é ainda assim significativa de modo como os partidos tratam esta questão. E, neste caso, não me pareceu uma opção muito feliz.

Mas a procissão ainda vai no adro e vamos ver muitos casos estranhos em todos os partidos.


sexta-feira, dezembro 24, 2004

Natal

Coimbra, 24 de Dezembro de 1979.

NATIVIDADE

Nascer e renascer...
Ser homem quantas vezes for preciso.
E em todas colher,
No paraíso,
A maçã proibida.
E comê-la, a saber
Que o castigo é perder
A inocência da vida.

Nascer e renascer...
Renovar sem descanso a condição.
Mas sem deixar de ser
O mesmo Adão
Impenintentemente natural,
Possuído da íntima certeza
De que não há pecado original
Que não seja o sinal doutra pureza.

Miguel Torga, Diário XIII


quinta-feira, dezembro 23, 2004

Transparência

O conflito israelo-árabe (não, o problema não é apenas israelo-palestiniano) é bastante mais complexo do que muitos nos querem fazer crer (isto é, aqueles que pensam do género Israel=maus e palestinianos=bons).

Se do lado de Israel os partidários do Grande Israel são cada vez menos e a maioria da população anseia, sinceramente, a paz, do lado palestiniano as coisas são um pouco mais complexas. Em primeiro lugar, acredito, também, que a maioria dos palestinianos gostariam mais de viver em paz do que em guerra. Mas, da parte dos seus dirigentes, tenho já dúvidas de que isso aconteça.

E a entrevista que Khaddoumi (que substituiu Arafat na liderança da Fatah) deu à televisão Al Aram do Irão é de uma cristalina clareza no que diz respeito ao pensamento de alguns dirigentes palestinianos quanto à possibilidade de resolução do conflito. E que disse ele?

Que os palestinianos , numa primeira fase, aceitariam um estado palestiniano ao lado de Israel, mas que, com o passar dos anos, elimariam o estado de Israel. Claro, clarinho com água. Para quem tem dúvidas quanto à má-fé com que alguns palestinianos negoceiam a paz, penso que terão ficado esclarecidos. Lembrem-se de que esta era uma organização dirigida por Arafat.

E pelo que diz a dita notícia, este plano palestinianos foi estabelecido já em 1974. Transcrevo parte da notícia:

"At this stage there will be two states," Khaddoumi told Iran's Al Aram television. "Many years from now, there will be only one."

Khaddoumi, who regards himself as Palestinian foreign minister, said he was confident that Israel would be eliminated. He said he always opposed Israel's existence and cited the Arab numerical superiority over the Jewish state.

"[There are] 300 million Arabs, while Israel has only the sea behind it," Khaddoumi said.

Khaddoumi said his platform was endorsed by the PLO in 1974. He said the strategy called for a phased plan that would establish authority over any territory obtained from Israel, concluding with an Arab war to destroy the Jewish state.

Assim se vê que, nos mais elevados postos de organizações palestinianas, há quem pense na destruição do estado Israel. Será que há gente que ainda não percebeu que Israel, antes de mais, luta pela sua sobrevivência?


Inverno

Estamos já no Inverno. Boa altura para relembrar aqui um dos poetas portugueses que mais aprecio: Camilo Pessanha. Devo dizer que Pessanha, juntamente com Cesário Verde e Fernando Pessoa são, para mim, os mais importantes poetas portugueses dos últimos 150 anos. Não quer com isto dizer que, para além desta trindade poética, não tenha havido bons poetas em Portugal.

Claro que tivemos e continuamos a ter, desde Torga, passando por Sophia, Cesariny ou Hélder (não me falem de Eugénio de Andrade que, sei lá porquê, nunca engracei muito com a sua poesia). Outros poetas estão a aparecer, mas como não os tenho lido muito (o tempo não dá para tudo, não é...) abstenho-me de os mencionar, esperando por uma outra altura.

Mas, voltando aos nossos poetas, parece-me que, e não entrando em precisões literárias, o cume que eles atingiram não voltou, ainda, a ser atingido.

E que poetas estranhos (em vários sentidos) eles são. Algo os une, como por exemplo, o facto de pouco terem publicado (organizadamente em livro) em vida. Cesário apenas publicou em publicações periódicos, sendo O livro de Cesário Verde (1887) um livro póstumo editado pelo seu amigo Silva Pinto. Pessanha para além da sua Clepsydra de 1920, apenas publicou um conjunto significativo de poemas na revista Centauro de 1916 em vida. Pessoa publicou, em português, um único livro, A Mensagem, em 1934.

Voltarei a falar deste três poetas, agora quero apenas deixar o díptico Paisagens de Inverno (utilizo a edição de Paulo Franchetti, 1995, da Relógio d'Água). De notar que, nesta edição, a ortografia não foi actualizada.


PAISAGENS DE INVERNO

I

(A Alberto Osório de Castro)

Ó meu coração, torna para traz.
Onde vaes a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o peccado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brazido.
Noites da serra, o casebre transido...
Scismae, meus olhos, como uns velhinhos.

Extinctas primaveras, evocae-as.
Já vae florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapeus de maias.

Socegae, esfriae, olhos febris...
Hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis.


II

(A Abel Annibal de Azevedo)

Passou o outomno já, já torna o frio...
- Outomno de seu riso maguado.
Algido Inverno! Obliquo o sol, gelado...
- O sol, e as aguas limpidas do rio.

Aguas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cançado,
Para onde me levaes meu vão cuidado?
Aonde vaes, meu coração vazio?

Ficae, cabellos d'ella, fluctuando,
E, debaixo das aguas fugidias,
Os seus olhos abertos e scismando...

Onde ides a correr, melancolias?
- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translucidas e frias...


Intendência

Neste semana não tenho tido muito tempo para o blog pois tenho vários trabalhos que têm que ser acabadas até amanhã. Por isso, muito de interessante que se passou esta semana não tem sido comentado por mim.

De qualquer modo, não queria deixar de agraceder ao Francisco por me ter classificado entre a sua biblioteca de eleição. É sempre bom sabermos que somos apreciados.

Não transformando isto numa "sociedade do elogio mútuo" (deixemos isso para as capelinhas dos nossos intelectuais), o Aviz é também uma das minhas indispensáveis leituras diárias.

Entretanto, a minha lista de preferidos também está quase elaborada. Logo que a puder acabar também a publicarei.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Olha se fosse cá!

Nas minhas divagações pela rede fora, encontrei um interessante artigo sobre Charles Clarke, o recentemente nomeado ministro do Interior do governo Blair (em substituição do afastado Blunkett).

Ora este Charles Clarke era, anteriormente a esta nomeação, o ministro da Educação do mesmo governo e em 2003 disse algumas coisas extraordinárias sobre a "história medieval".

Charles Clarke, the education secretary, has continued his assault on the great subjects of academe by revealing that he regards medieval history as "ornamental" and a waste of public money.
(...)
"I don't mind there being some medievalists around for ornamental purposes, but there is no reason for the state to pay for them," he said on a visit to University College, Worcester. He only wanted the state to pay for subjects of "clear usefulness", according to today's Times Higher Educational Supplement.


Já imaginaram um ministro da educação português dizer tais disparates? E depois ainda pensamos que estamos mal servidos.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

O ferrabrás

Esta história da co-incineração é um verdadeiro conto de coragem de ferrabrás. E porquê?

Porque ele sabe perfeitamente que vai dar a imagem de um homem que não cede aos princípios por questões eleitorais, que se arrisca a perder votos por essas questões de princípios, quando sabe perfeitamente que esta questão o fará perder apenas alguns, se calhar, não muitos, votos naquela zona e nada mais.

E, pronto, assim se fica com a fama de homem de princípios.

Post scriptum. É claro que se fosse, digamos, Lisboa em questão, outro galo cantaria.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

L'enfant de Chios


Les Turcs ont passé là. Tout est ruine et deuil
Chio, l'île des vins, n'est plus qu'un sombre écueil,
Chio, qu'ombrageaient les charmilles,
Chio, qui dans les flots reflétait ses grands bois,
Ses coteaux, ses palais, et le soir quelquefois
Un chœur dansant de jeunes filles.

Tout est désert. Mais non; seul près des murs noircis,
Un enfant aux yeux bleus, un enfant grec, assis,
Courbait sa tête humiliée;
Il avait pour asile, il avait pour appui
Une blanche aubépine, une fleur, comme lui
Dans le grand ravage oubliée.

Ah ! pauvre enfant, pieds nus sur le roc anguleux!
Hélas! pour essuyer les pleurs de tes yeux bleus
Comme le ciel et comme l'onde,
Pour que dans leur azur de larmes orageux,
Passe le vif éclair de la joie et des jeux,
Pour relever ta tête blonde,

Que veux-tu? Bel enfant, que te faut-il donner
Pour rattacher gaiement et gaiement ramener
En boucles sur ta blanche épaule
Ces cheveux qui du fer n'ont pas subi l'affront,
Et qui pleurent épars autour de ton beau front,
Comme les feuilles sur le saule?

Qui pourrait dissiper tes chagrins nébuleux?
Est-ce d'avoir ce lys, bleu comme tes yeux bleus,
Qui d'Iran borde le puits sombre?
Ou le fruit du tuba, de cet arbre si grand,
Qu'un cheval au galop met, toujours en courant,
Cent ans à sortir de son ombre?

Veux-tu, pour me sourire, un bel oiseau des bois,
Qui chante avec un chant plus doux que le hautbois,
Plus éclatant que les cymbales?
Que veux-tu? fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux?

- Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,

Je veux de la poudre et des balles.


Victor Hugo, les Orientales

Autárquicas animadas

O presidente do meu clube decidiu, na Galiza, anunciar que iria participar activamente na campanha das eleições autárquicas do Porto, não pondo sequer de lado a hipótese de ser candidato, certamente para derrotar Rui Rio.

Não falo pelos outros mas, por mim, o facto dele ser candidato ou ir apoiar outro candidato não mudará o meu voto, pois esse será sempre, em condições normais, para Rui Rio. E o facto de ser portista não faz pensar que teria que votar de acordo com o presidente. Digo já há muito tempo que, primeiro sou português, depois portuense e, por fim, portista.

A minha escolha far-se-á sempre por aquilo que penso ser melhor para a cidade do Porto e não por opções clubísticas. São mundos muito diferentes, embora, em Portugal (e provavelmente noutros países também), esses se mundos se entrecruzem mais vezes do que necessário.

De qualquer forma, parece-me que Pinto da Costa ainda anda ressabiado pela derrota do seu grande amigo Fernando Gomes às mãos de Rui Rio. Além do mais, parece-me que Pinto da Costa tem actualmente problemas maiores do que o da Câmara do Porto.

Post scriptum. A não perder também o artigo do Blasfémias sobre o assunto.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Islamofobia

Como se sabe, nos últimos tempos esta palavra "islamofobia" tem sido usada, sobretudo por círculos islamitas, como contraponto a "anti-semitismo". É clara esta intenção, passando assim para o lado das "vítimas".

Não vou agora aqui discutir como foi cunhado o termo "islamofobia", fica para outra vez que o tempo é pouco, apenas registar que sob os auspícios das Nações Unidas houve um dia dedicado à islamofobia. Até aí, nada de especial, mas o compte-rendu de Alexander H. Joffe é exemplificativo do tipo de discurso não muito sério que se ouve nestes proponentes do conceito de islamofobia.

Só um pequeno exemplo:

The academics in particular displayed the almost ritualized distortion of facts that have given their profession such credibility. For example, the keynote speaker, Seyyed Hossein Nasr of George Washington University stated that the term ‘anti-Semitism’ in fact was originally directed at the Arabs in Spain and was directed only at Jews in the aftermath of World War II. Actually, the term dates only to 1879 and was coined by the German journalist and agitator Wilhelm Marr as a specifically anti-Jewish expression.

Os meus leitores mais antigos, sabem que eu já dediquei um pequeno artigo chamado Anti-semitismo, o que é? onde falei das origens da palavra anti-semitismo e de que ela se dirigiu apenas e só aos judeus e não aos povos semitas em geral.

Mais, Wilhelm Marr, no seu panfleto Der Sieg der Iudenthums uber der Germanenthum (que se poderia traduzir, aproximadamente, como A vitória do Judaísmo sobre o Germanismo) de 1873 (não 1879), identifica o "problema judeu" mais com base nas diferenças raciais do que nas diferenças religiosas.

Aliás, essa uma das razões pelas quais "islamofobia" não pode ser comparada com "anti-semitismo". A primeira dirige-se a uma religião, a segunda a uma raça, em primeiro lugar, que depois é identificada com uma religião. Mas o anti-semitas não querem saber se o judeu que odeiam é praticante ou não. odeiam-no por ele ser judeu (raça) e nada mais. E isso faz toda a diferença.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Coligações

O trabalho aperta, os prazos são curtos, não há muito tempo para o blog. Mesmo assim não quero deixar de notar a decisão (por fim!) tomada do PSD e o CDS irem a eleições sozinhos. Já era tempo, e não sei que tipo de considerações levaram que tanto tempo fosse gasto para esta decisão.

Tenho para mim que apenas circunstâncias muito especiais, como foi o caso em 1979, poderão levar o PSD a fazer, em eleições legislativas (pois em autárquicas a situação é diferente), uma coligação pré-eleitoral. E, mais, penso que este tipo de decisão nunca deveria ter estado em dúvida, pois mostraria a força da convicção do partido em não ter medo de perder eleições (perder sozinho ou acompanhado não é indiferente)

Assim, o tempo decorrido deu ideia (e já dizia o velhinho que em política o que parece é) de uma escolha táctica em vez de uma decisão por convicção. No sábado passado, deveria ter sido de imediato anunciada esta decisão.

Ainda assim, penso que esta decisão é a melhor para o PSD.

À direita do espectro político já está tudo claro. À esquerda, não. O PS pede a maioria absoluta mas não diz o que fará se tiver maioria relativa. Cá para mim, apesar da retórica oficial, eles até são capazes de fazer mesmo acordos parlamentares com o BE (visto que com o PCP parece-me impossível).

Post-scriptum. Já agora o pacto pós-eleitoral era perfeitamente escusado.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Pequena volta ao mundo do politicamente correcto

O politicamente correcto, se não fosse perigoso para a sanidade geral da humanidade, seria até muito divertido. Por isso, proponho uma pequena volta ao mundo (anglo-saxónico) do politicamente correcto.

EUA - A proibição de chamada "junk food" está a pôr em perigo os programas escolares extracurriculares das escolas públicas de Los Angeles.

Canadá - No Canadá, uma equipa foi suspensa da liga de hóquei em que joga por ser demasiado superior às outras. Uma grande lição para a vida, sem dúvida. Decididamente, le Canadá n'est pas un pays sérieux.

Austrália - "Merry Christmas" substituído por "Happy Hollidays". O que será que se comemora nesta época? e porque é que há férias escolares? Se querem ser consequentes, esta gente terá que inventar um novo calendário, como fizeram os revolucionários franceses...

Para mais idiotices do politicamente correcto, ler, por exemplo, o excelente Tongue Tied.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Lei da Blasfémia

Vital Moreira fala no Causa Nossa das preocupantes iniciativas legislativas empreendidas na Holanda e no Reino Unido sobre o estabelecimento de uma possível lei de blasfémia de forma a aplacar um pouco os radicais islâmicos (mas estas leis se aprovadas, obviamente não se aplicariam apenas ao islão).

Estou totalmente de acordo com Vital Moreira, tais leis representam um atentado à liberdade de expressão, para além de um retrocesso civilizacional. O delito de opinião passava a ser criminalizado. Porque é que os lóbis das minorias querem criminalizar tudo e mais alguma coisa que os conteste?

Mas, para além, desta lei da blasfémia, há outras que foram recentemente aprovadas e à qual se poderia aplicar a mesma argumentação que Vital Moreira refere contra a lei da blasfémia.

Em França, no quadro da criação de uma alta autoridade de luta contra as discriminações, incluíram-se as principais disposições do contestado Projet de loi relatif à la lutte contre les propos discriminatoires à caractère sexiste ou homophobe. Este projecto de lei não foi para a frente graças ao parecer negativo da Commission nationale consultative des droits de l'homme (CNCDH) em 18 de Novembro de 2004.

Mas o governo e a maioria não desistiram e na criação dessa alta autoridade incluíram algumas dessas disposições que os jornalistas e artistas franceses consideraram liberticidas.

Tal como Vital Moreira refere em relação às religiões, também (e reformulando a frase de Vital Moreira) a homofobia e o sexismo devem ser combatidos e condenado o ódio homofóbico e sexista e a sua instigação.

Mas esta lei não se justificava pois, mais ainda como referiram alguns parlamentares franceses durante a discussão do assunto, nem sequer havia um vazio legislativo em França acerca destes assuntos, pelo que havia sempre a hipótese de levar à justiça os casos que tal o merecessem e justificassem.

Nenhuma comunidade, nenhuma religião, nenhuma orientação sexual, nenhuma opinião política está acima de crítica, e até da caricaturização, da parte daqueles que com elas não concordam ou desaprovam. Criticar ou caricaturizar nem tem que ser obrigatoriamente ódio ou instigação contra qualquer coisa.

As minorias, de qualquer espécie, têm que aceitar as críticas, tal como as maiorias a aceitam. Só assim estaremos num estado democrático. De outra forma, caíremos numa ditadura politicamente correcta mascarada de democracia em que haverá assuntos tabus em que todos têm que estar de acordo sob pena de irem parar à prisão.

O pensamento único (que ao contrário do que alguns pensam não é neoliberal) parece estar em marcha. Cabe a nós, cidadãos, dizer-mos basta à tentativa de regulamentação daquilo que podemos ou deveremos dizer.

UE - Turquia

Esta semana vai ser decisiva quanto à aceitação ou não da abertura de negociações tendo em vista a adesão da Turquia à União Europeia.

Como se sabe, o presidente Chirac, menosprezando completamente a opinião do seu partido e, pior ainda, do sentimento dos franceses em relação a esta adesão, é o mais forte apoiante desta abertura de negociações.

Ora como se sabe, não colhe o argumento de que agora só se abrem as negociações e que daqui a dez anos, no final delas, se poderá decidir, definitivamente, quanto à adesão efectiva ou não do candidato, pois ao fim de todo esse tempo não se vai dizer a esse país que agora não entram.

Em França, a oposição à entrada da Turquia é maioritária na UMP, mas também no PSF as opiniões contrárias são imensas. Uma delas é Robert Badinter que tem hoje uma entrevista sobre o assunto no Le Figaro. Mas, Badinter vai mais longe e fala também do excessivo alargamento das fronteiras europeias, aconselhando uma pausa neste contínuo crescimento.

De qualquer modo, penso que Badinter apresenta argumento sólidos e lúcidos para a recusa de abretura de negociações com a Turquia a 17 de Dezembro durante o próximo Conselho da UE.

sábado, dezembro 11, 2004

Eleições

Vamos ter eleições a 20 de Fevereiro. Bom, por mim tudo bem, tanto voto a 13, como a 20 ou a 27. mas extraordinário continua a ser a obsessão com os aumentos da função pública, (que foi uma das razões dadas pelo presidente para apoiar a aprovação do orçamento).

Não estou contra os funcionários públicos, apesar de achar que existem em número exagerado no estado português (parece que os funcionários públicos substituíram, na sociedade portuguesa, os frades do Portugal do Antigo Regime, que, como se sabe, também existiam em número absurdamente elevado). Mas, esta obsessão com eles, cheira-me, como já disse anteriormente, a clientela, isto é, compra-se o voto dos funcionários através dos aumentos. E nisso, com Guterres, os socilistas esmeraram-se.

De resto, o presidente não disse nada que não se já soubesse. Aliás, é já tempo do PSD deixar de falar no presidente. É tema do passado e não é o presidente que vai a votos em Fevereiro. O PSD tem é que estabelecer desde já a sua estratégia eleitoral, com ou sem coligação (de preferência sem), com programa de governo e mostrando que os seus principais adversários não estão, nem de longe nem de perto, preparados para governar (opinião que Helena Roseta expressou há 2 semanas atrás numa entrevista ao Independente).

Espero que este fim-de-semana fiquem já resolvidas pelo menos uma destas questões...

sexta-feira, dezembro 10, 2004

O que vai mal no Iraque

Embora não sendo eu, à partida, um crítico da intervenção militar americana no Iraque, para além do terrorismo há um problema muito mais grave (e que, ao contrário do terrorismo, demorará muito mais a ser resolvido) que se tem agravado depois da intervenção: o estatuto da mulher.

A leitura deste artigo é perfeitamente esclarecedora do que está acontecer actualmente no Iraque. A situação das mulheres iraquianas está a degradar-se rápida e progressivamente.

Eu sei que a situação iraquiana é complexa, mas talvez se pudesse algo para evitar uma regressão. A democracia também é feita de direitos e deveres iguais para todos. Será que os americanos estão interessados apenas numa democracia formal?

Contra uma polícia da língua

Sempre fui contra o politicamente correcto e com a tendência manifestada nas últimas três décadas de criminalizar as afirmações politicamente incorrectas. Agora, qualquer afirmação menos polida é logo taxada de homofóbica, racista, anti-semita, islamofóbica, etc, etc, etc...

As afirmações até podem ser isso tudo, mas o mundo é feito de opiniões divergentes e de confronto. Esta tendência de criminalizar opiniões menos alinhadas é típica das sociedades modernas que querem criar um pensamento único e tem origem, como não podia deixar de ser, no pensamento marxista, pois através do controlo das palavras que se podem dizer, controla-se também o pensamento, reduzindo-se a capacidade de reflectir.

Vem tudo isto a propósito de um excelente artigo que encontrei no Libération escrito por Michel Erman. Vale a pena ler e reflectir sobre o assunto. Deixo aqui, apenas a sua conclusão:

Il y a plus de deux siècles, dans son Essai sur l'origine des langues, Rousseau constatait que l'exercice de la parole publique tout comme le goût du débat avaient disparu de la société d'alors pour être remplacés par les sermons. Prenons garde à ne pas nous placer aujourd'hui dans une situation semblable à celle qui prévalait pour l'Ancien Régime. Une société où l'on préfère la parole imposée à la parole partagée et où l'opinion discordante se nomme blasphème.

Boa leitura.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Almeida Garrett

Não querendo deixar passar em branco a data do 150º aniversário da morte de Almeida Garret, publiquei no meu outro blog um texto que tenta relembrar a importância de Almeida Garrett na literatura portuguesa através de uma crítica coeva aparecida num jornal de 1839 (O Panorama).

Espero que gostem (cuidado, texto um pouco longo).

Descredibilização

O nosso presidente anda sempre a falar de credibilização da política e dos políticos. Mas o modo como está a tratar a dissolução da Assembleia da República é tudo menos credibilizadora do sistema político-partidário. E porquê?

Porque o presidente decidiu dissolver a Assembleia primeiro e só depois ouvir os partidos nela representados e o Conselho de Estado, ao contrário do disposto na Constituição [Artigo 133º alínea e)]. Ou seja, a consulta aos partidos e a audição do Conselho de Estado é uma verdadeira proforma porque estas consultas já não têm qualquer sentido, pois vão ser confrontados com uma decisão tomada a priori.

Mais, digo, se fosse conselheiro de Estado, não punha lá os pés. Ir fazer apenas de ouvinte e não de conselheiro é limitar a zero as competências do Conselho de Estado. E lembre-se que uma das competências deste Conselho [artigo 145º alínea a)] é a de pronunciar-se sobre a dissolução da Assembleia da República. Se o presidente já decidiu o que é que os conselheiros vão lá fazer?

O presidente está apenas a respeitar formalmente, mas não na prática, o que diz a Constituição, mostrando assim que o presidente desprezou a Constituição que jurou respeitar.

E é claro que o presidente não quer é que o actual primeiro-ministro governe, pois em situações de muito maior crise, com poderes presidenciais um pouco mais largos, Eanes, deu hipótese à assembleia saída das eleições de 1976, depois da queda do 1.º governo constitucional de Màrio Soares, arranjar uma solução entre os partidos nela representados, tendo saído o 2.º governo constitucional de coligação PS-CDS. Ora, neste caso, até existe uma maioria parlamentar ao contrário desse tempo.

Por isso o presidente não demitiu o governo, pois poderia ter que começar os trâmites que levassem a uma solução dentro do quadro da actual Assembleia da República. Mas isso é uma coisa que o presidente não queria. Para evitar um confronto com a maioria, o presidente decidiu, e mal, assim.

Por outro lado, parece-me, o presidente não queria sair do cargo sem se reconciliar com a sua família política, depois da decisão tomada há quatro meses atrás que quase o excomungaram dela. Mas o presidente deveria ser de todos os portugueses, não do "povo de esquerda". O presidente esqueceu-se disso...

Enfim, para trapalhada constitucional não está mal.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Lembrou-se agora!

O nosso caro presidente da república lembrou-se agora de que os poderes presidenciais deveriam ser mais alargados.

Passou o primeiro mandato a ver os socialistas guterristas a fazer asneiras e a afundarem Portugal. Mostrou-se impassível e nunca mandou recados. Agora no fim é que se lembrou disso.

Enfim, fico feliz por nunca ter votado nele.

terça-feira, dezembro 07, 2004

É a vida

Parece que há para aí alguns que vão ter que morrer de inveja mais uns tempinhos... então não é que o FC Porto passou à segunda fase da Liga dos Campeões?

Saltos para a água

Ontem, no Estádio - perdão - piscina da Luz, mais um momento de elevado teor artístico com a exibição do mergulhador Karadas cuja actuação teve nota máxima por parte dos juízes.

No fundo, é apenas a continuação de uma longa tradição de mergulhos excepcionais, sempre bem pontuados pelos juízes. Quem não se lembra, lá por aqueles lados, do João Pinto dos velhos tempos?

Enfim, a tradição ainda é o que era.

Post scriptum. O nome de Paulo Pereira não terá qualquer significado lá para os lados de Gondomar? Não lhes dirá nada este nome? É que foi um autêntico apito de platina.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Será desta?

Sete em doze peritos acabaram por concluir pela existência de sabotagem no caso da morte de Sá Carneiro.

Será desta vez que o Estado Português terá coragem para levar a investigação até ao fim, agora, para apuramento das responsabilidades criminais?

Lata

Ouço (e leio) que Durão Barroso desaconselha o referendo sobre a Constituição Europeia.

É preciso ter lata. Barroso em primeira instância culpado da actual crise - tal como Marcelo, sempre pensei que ele não iria aceitar a proposta, pois achava que tal daria cabo da coligação - , ainda tem lata de vir dizer isto?

Temos que continuar a exigir aquilo a que temos direito (e que nos foi negado no caso de Maastritcht), isto é, pronunciarmo-nos sobre este novo passo em frente (parece-me que em direcção ao abismo) da União Europeia (ai que saudades da Comunidade Económica Europeia).

Vamos ver o que é que o PS e o PSD têm a dizer sobre o assunto.

domingo, dezembro 05, 2004

Um ano

Faz hoje um ano que iniciei este blog, é certo que numa outra casa, mas devido a alguns problemas no serviço do Sapo, decidi-me mudar para esta casa actual.

Ter um blog é um desafio interessante e que muito me tem divertido. Agradeço a todos os que me lêem, por poucos que sejam, são sempre bons.

Só me resta, com os tempos que se aproximam, continuar, pois isto promete e, como há gente para aí a dizer, os blogs começam a influenciar (ver o caso Rather nos EUA).


sábado, dezembro 04, 2004

Francisco Sá Carneiro

Há 24 anos atrás, por volta da hora do jantar, preparava-me eu para sair de casa com uns primos meus para irmos ao Coliseu a um comício de apoio à candidatura de Soares Carneiro à presidência da República (contra o Eanes) . Mas, nem sequer chegámos a sair de casa, pois Raul Durão, na TV (única e estatal) dava uma notícia difícil de acreditar: Sá Carneiro tinha morrido em acidente de avião quando vinha para o Porto para estar presente em tal comício.

Foi algo mutio difícil de aceitar, pois agora que Portugal um governo maioriátio confirmado em Outubro por mais quatro anos, o seu primeiro-ministro, e principal motor da coligação, morria.

Não sei qual teria sido a história de Portugal se Sá Carneiro não tivesse morrido, não sei se teria sido melhor, mas a sensação que tenho é que Portugal perdeu aí cerca de 5 anos de desenvolvimento. Para quem não se lembra, o início dos anos 80 não foram nada fáceis e com a destabilização da AD e o famigerado governo do Bloco Central andámos a marcar passo.

Nos anos seguintes, reviu-se a constituição em 1982, em que se acabou com atutela antidemocrática do Conselho da Revolução, mas manteve-se um artigo 83º que dizia no seu n.º 1:

"Todas as nacionalizações efectuadas depois de 25 de Abril de 1974 são conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras".

Só em 1989 o PS se conseguiu livrar desta tralha marxista de mandar às malvas as "consquitas irrerversíveis das classes trabalhadoras". Todavia Sá Carneiro, no seu livro "Uma Consittuição para os anos 80" (1979, Dom Quixote), já se propunha no seu artigo 88º a flexibilizar essa dita "irreversibilidade", dizendo no seu n.º 4

"As empresas directamente nacionalizadas depois do 25 de Abril de 1974, situadas em sectores básicos da economia, vedados às empresas privadas, não poderão ser reintegradas no sector privado".

Era naquele tempo um claro avanço, pois além de eliminar um fraseado marxista, permitia uma flexibilização na consideração daquilo que poderia voltar a mãos privadas. No entanto a revisão de 1982 teve o mérito de eliminar o n.º 2 do Artigo 82º da Constituição de 1976, que é verdadeiramente 3.º mundista:

"A lei pode determinar que as expropriações de latifundiários e de grandes proprietários e empresários ou accionistas não dêem lugar a qualquer indemnização".

Não sei se com Sá Carneiro se teria puxado os limites desta revisão de 1982, permitindo assim uma mais rápida modernização do país, mas suponho que ele teria tido maior capacidade que a dupla Balsemão/Amaral para convencer Soares disso.

Apenas sei que, sem mitificar o homem (que como todos nós tinha virtudes e defeitos), o futuro teria sido diferente. Mas, a vida é como é e, como sói dizer-se, "não vale a pena chorar sobre leite derramado".

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Notas soltas

A semana tem sido louca a nível de trabalho pelo que a actividade no blog tem sofrido uma certa quebra. Mas, o "mundo pula e avança" como dizia Gedeão e, neste caso, até há muitas novidades. O mínimo que se pode dizer é que a semana tem sido animada.

- A telenovela à volta da dissolução da Assembleia da República é verdadeiramente incrível. Esta dissolução diferida inventada pelo nosso presidente (não que me considere traído pelos presidente, eu até nem votei nele) deve ser uma novidade mundial. Mas enfim, do Dr. Sampaio, como aliás do seu antecessor, o Dr. Soares, nunca esperei nada de bom.

- Para grande gáudio dos "seis milhões", o Pinto da Costa está detido. Finalmente, devem pensar eles. Eu só os aviso que, com ou sem presidente, os dragões estão prontos para ganhar o campeonato. Nem isso nos desestabiliza. Quanto ao processo em si, nada tenho a dizer a não ser que não ponho as mãos de fogo por ninguém.

- Voltando à política, está-me a desagradar esta brincadeira do PSD à volta de ir ou não ir fazer coligações, agora falam em plataformas eleitorais. Penso que não é por aí que vamos a algum lado. Em primeiro lugar, é preciso que esclarecer se o partido quer ou não quer Santana como candidato a primeiro-ministro (como militante, que obviamente não vou ser ouvido, preferia outro). Antes de pensar em plataformas, deve-se arrumar a casa e acabar com as bocas vindas da geral...

- Parece-me, além disso, evidente, que Portas quer tentar capitalizar a boa imagem (verdadeira ou mitificada) dos seus ministros, pelo que vai, quase de certeza sozinho a eleições. O que deixa outra pergunta: se o PSD quer uma plataforma, com quem vai fazê-la? o PPM? PND?

- Do Sócrates nem vale a penar falar. O Vitorino vai escrever o programa de governo. Espero é que seja melhor do que de 1995, que foi a receita perfeita para o desastre. Por outro lado, a gente que aparece ao lado de Sócrates também não nos faz ter muita confiança num eventual governo PS (que não é obrigatório que aconteça). O remake socrático é mesmo mauzinho, voltaram à ribalta pessoas como Coelho, por exemplo.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

C'est fini!

Mas, na verdade nunca deveria ter começado.

Se bem se lembram, num artigo passado (20/11/04), eu ter mencionado a surpreendente decisão do CSA (autoridade francesa para a televisão) ter permitido as emissões da cadeia Al-Manar (do Hezbollah) através do Eutelsat.

Decisão surpreendente porque a programação dessa cadeia é de um anti-semitismo virulento e explícito, que vai muito para além do aceitável.

Graças a órgãos de informação como o Proche-Orient.info que fez uma escuta 24 horas por dia das emissões da Al-Manar e foi dando conta do que aí se pssava, o governo francês, pela voz do primeiro-ministro Raffarin, vai acabar com as emissões dessa televisão (pelo menos através do Interlsat, pois ela continuará a chegar a França através de outros satélites).

Esperemos que seja o ponto final num assunto lamentável que nunca deveria ter atingido este ponto.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Prioridades

Ouço na SIC-N, Carvalho da Silva dizer que a prioridade do novo governo deve ser o de garantir uma aumento aos trabalhadores da Administração Pública.

Estamos conversados. O que é preciso é garantir uma base eleitoral fiel. A esquerda parece tratar a função pública como os senadores romanos tratavam aqueles cidadões romanos que lhe davam apoio e que tinham o nome de "clientes" (cliens, entis).

Conforme se sabe, na Antiga Roma, os clientes eram os cidadãos romanos livres, mas de origem plebeia, que estavam sob a protecção de um patronus, um patrício, o qual lhes prestava assistência em todas as circunstâncias da vida, recebendo este, em contrapartida, da clientela cumprimentos matinais e, sobretudo, apoio nas eleições.

A função pública está-se a tornar numa verdadeira clientela, com o seu peso desmesurado na sociedade portuguesa. É claro que os seus patronos são os partidos de esquerda, como o PS e o PCP, e ainda o BE, que a querem instrumentalizar através da manutenção de estatuto de privilégio em relação a quem trabalha no sector privado, estando os problemas da função pública na primeira linha de prioridades desta gente.

Podem-me dizer que Carvalho da Silva é antes de mais um sindicalista, mas penso que ele traduz todo o pensamento da esquerda em relação a esta questãoo. Ainda ontem, no debate da SIC-N com vários jornalistas, um deles, já não me lembra qual, disse sem gaguejar que não acreditava que os PSD tivesse tido, em 2002, muitos votos dos 700 000 funcionários públicos. Porque será?

Sendo assim, vê-se que o funcionalismo público é um travão à modernização da sociedade portuguesa, pois olha-se a si mesmo como um sistema que se justifica por si mesmo, não atentendo ao facto de que só existe para servir os cidadãos.

Está-se mesmo a ver o que nos espera se a esquerda ganhar eleições.

1.º Dezembro

Comemora-se hoje um feriado que muitos nem sequer sabem do que se trata, outros desprezam-no claramente (será que gostavam de ser espanhóis).

Este dia deu origem a uma dinastia que foi, de longe, a mais criticada de todas: a dos Bragança. Basta ler Oliveira Martins, por exemplo, para ver quanto esta dinastia era menosprezada durante o próprio século XIX.

D. João IV não ficará na história como um dos grandes reis de Portugal, mas, pelo menos, podemos reconhceer-lhe o mérito de ter arriscado a sua posição confortável dentro da monarquia dual e afrontar uma Espanha poderosa (embora em começo de decadência perante poderes mais dinâmicos como a França, Inglaterra ou as Províncias Unidas).

De qualquer modo, a este dia, e aos conjurados, devemos nós, para o bem e para o mal, a nossa independência. E quem diz que isso não valeu a pena, olhem para a Catalunha e vejam como eles nos invejam por termos sido bem sucedidos em 1640, onde eles falharam em 1639.