segunda-feira, julho 11, 2005

Circuito Automóvel da Boavista

Eu sou um confesso apaixonado pelos automóveis (sobretudo pelos carros de F1 e Grand Prix) pelo que nunca poderia estar contra a ideia de Rui Rio de reavivar o Circuito da Boavista, ainda por cima tão pertinho da minha casa.

Logo por azar, este fim-de-semana tive que trabalhar, pois tenho trabalho para entregar amanhã, pelo que nem sequer tive oportunidade de ir dar uma espreitadela ao circuito. Fiquei-me por ver as imagens da SIC-Notícias e ouvir os motores (que se ouviam distintamente em minha casa).

Mas ver todos aqueles carros fantásticos na televisão foi bastante bom, só foi pena o realizador não perceber nada sobre automóveis (que pobreza de realização - fazer cobertura de corridas automóveis não é o mesmo que fazer o Caras Notícias).

De manhã, tinha lido no Jornal de Notícias a oposição do Bloco de Esquerda a este evento:
BE acusa Rio de brincar aos carrinhos

O Bloco de Esquerda contestou, ontem, a realização do Circuito da Boavista, que "Rui Rio utiliza para colar à sua anunciada recandidatura à Câmara do Porto".

"Nada temos contra os automóveis, mas estamos contra a utilização de dinheiros públicos nestas iniciativas. Aliciam-se as pessoas com pão e circo. Como não há pão, dá-se-lhes circo", afirmou João Teixeira Lopes, do BE.

O BE, embora não veja com bons olhos o "cerco" da Parque da Cidade, sublinhou que "o circuito até poderia merecer o nosso apoio se organizado com dinheiros privados".

Não sei porquê, mas estas declarações do Bloco fazem-me rir. O Bloco de Esquerda é apoiante da iniciativa privada? Isso também se aplicará à "Cultura"? E se não, porquê?

Por um lado, eles lá devem saber do que falam quando referem o circo. Actividades circenses é aquilo a que o Bloco mais nos habituou seja à porta de tribunais, ou passearem de traineira para barcos ao largo da costa portuguesa, lenços palestinianos no Parlamento, etc., etc., etc.

No entanto, esta preocupação com os dinheiros públicos do Bloco é muito selectiva. Nunca os vi protestar contra o apoio que a Câmara de Lisboa de Sampaio e Soares dava, por exemplo, ao Festival de cinema "gay" de Lisboa ou o apoio que essa mesma câmara deu à Fundação Mário Soares (fazer fundações com dinheiro público também eu faço).

O Bloco gosta que os dinheiros públicos financiem as actividades de que eles gostam, a "Cultura", por exemplo. Só que a concepção de cultura bloquista (e esquerdista, em geral) não é muito abragente e dirigida apenas para um público minoritário e elitista. Os bloquistas são tal e qual como Horácio quando dizia "odi profanum uulgus". Se é para muita gente já não estão de acordo. Mas se os dinheiros públicos forem para subsidiar as pessoas "certas", nem que não haja mais ninguém a ver aquilo, então já não gritam ao "panem et circenses".

Não se espantem por eu comparar "cultura" com "eventos desportivos". Tudo depende do conceito de "cultura". Além do mais, Rui Rio disse que o evento estava projectado para ter um ligeiro lucro ou um ligeiro prejuízo (espero que se cumpra o primeiro). Para além da enorme promoção da cidade que o evento criou junto dos entusiastas dos automóveis antigos de competição estrangeiros (sobretudo ingleses), que é gente que quando faz turismo não é propriamente turismo de pé descalço.

Só que recordar aquilo que se passou há 50 anos não será também "cultura"? (seja isso lá o que for). A minha filha mais velha (a mais pequena não tem idade para isso) e os meus sobrinhos (que tiveram a sorte de poder ir) deliraram com o que viram, ficaram maravilhados com os carros diferentes que viram. Deu-lhes a conhecer coisas diferentes daquelas que conhecem.

Virem agora armar-se em defensores dos dinheiros públicos (quando estão sempre prontos a gastá-lo em tudo e mais alguma coisa, desde que se enquadre na sua mundovisão) e falarem em circo, quando são os maiores criadores de espectáculos circenses políticos é ter lata.

Post scriptum. E eu até não tenho nada quanto à chamada "cultura", afinal até sou de Letras e conheço melhor o neo-realismo literário (e nessa matéria a minha professora até foi a Isabel Pires de Lima) do que o Mises ou o Hayek (espero que os meus colegas insurgentes não levem a mal esta heresia).

Entrada publicada ontem no Insurgente.