quinta-feira, janeiro 19, 2006

Epifanias e epifanias...

Como se sabe, o calendário litúrgico ortodoxo desfasado do nosso ano civil, pois a Rússia dos czares nunca aceitou o chamado calendário gregoriano (que em 1582, fez com que ao dia 4 de Outubro se seguisse o dia 15, por ordem do Papa Gregório XII), mantendo o calendário juliano até à queda da Rússia imperial (por isso que a chamada Revolução de Outubro se deu em Novembro segundo o nosso calendário). Só em 1918 a Rússia, em transformação para União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, adoptou o calendário gregoriano (mas como já tinham passado 336 anos, a diferença já era de 13 dias).

Por isso, ontem, os ortodoxos celebraram a Epifania do Senhor, que para os católicos é no dia 6 (mas celebrada no Domingo que fique entre 2 e 8 de Janeiro). Só que o que motiva esta entrada não é tanto a Epifania em si, mas a notícia que a RTP-N deu sobre um banho tradicional em água gelada que alguns russos tomam nas celebrações desta festa. Só que a notícia provocou-me algum estranhamento. Porquê?

Porque tanto a locutor que apresentou a peça como a locutora da peça pronunciaram "Epifánia" em vez de "Epifania". Ambas pronunciaram a palavra como se ela fosse proparoxítona (esdrúxula), isto é, com acentuação tónica na antepenúltima sílaba, em vez de a pronunciarem como paroxítona (grave), isto é, com acentuação tónica na penúltima sílaba.

Será isto uma mera falha de pronúncia. Se fosse só isso, talvez nem me lembrasse de escrever algo sobre o assunto. O problema, para mim, é que nestas pequenas falhas se nota, frequentemente, uma falha de cultura geral alargada, pois nem se pode dizer que é preciso ser católico (ou cristão) para alguma vez na vida se ter ouvido a palavra Epifania, estando nós num país católico. Sendo que as duas locutoras vivem também em Portugal e sou portuguesas, por via da profissão que exercem, mais obrigação têm de ter uma cultura geral bem desenvolvida, sendo que não deveria (e/ou poderia) ser que estivessem a ler a palavra pela primeira vez.

Por outro lado, será que estamos mais uma vez no campo das traduções apressadas (como o caso apontado por Pacheco Pereira com a Burgundy/Borgonha, em que o tradutor (profissional ou improvisado) é ignorante de questões culturais? E perante uma fonte, possivelmente, inglesa em que a acentuação de "Epiphany" cai em "pha" um por um mimetismo qualquer se transforma em "Epifánia" em Português.

Já algumas vezes referi (por exemplo aqui) um tradutor tem que ter uma boa cultura geral e deve informa-se sobre o que está escrever; não basta saber línguas, isso é um requisito mínimo.

Por isso é que eu acho que frequentemente estes pequenos erros revelam muito mais do que um erro de tradução. Por vezes revelam uma falha cultural e isso, em algumas profissões, é muito grave.

A propósito, em português "Epifânia" é um antropónimo feminino em português.


Post scriptum. Quem quiser saber algo sobre a evolução dos calendários pode consultar este artigo. É excelente e dá excelente informação sobre o assunto.